
O que me marcou mais quando entrei em casa foi encontrar tão poucas coisas. Nas imagens do anúncio viam-se quadros nas paredes, livros nas estantes, uma televisão na cómoda, almofadas na cama e tapetes no chão. Mas o que encontrei dentro de casa, naquela noite de setembro, foi um esqueleto muito parco do que se via nas imagens que o proprietário tinha colocado na página de arrendamentos.
Havia o sofá branco no centro da sala, mas não havia nada nas paredes. Não havia candeeiro no teto, apenas uma lâmpada presa a um fio. Havia uma cómoda, mas sem televisão, e uma estante apenas com um livro, já caído – um guia de restaurantes no Estado de Washington, datado de 2017. O chão era de madeira clara (seria pinho, ou uma imitação de?), com alguns riscos. No quarto havia uma cama com um colchão, uma secretária e uma cadeira. A cozinha era o único sítio que se parecia minimamente com as imagens do anúncio, com panelas, pratos e talheres em cima da bancada, junto à chaleira.
Pousei a mala e a mochila no quarto, abri as cortinas e puxei as persianas. A casa estava quente e cheirava a um cinema antigo, acolhedor e agradável.
Estava cansado da viagem e tinha fome. Resolvi sair e ir à procura de um sítio onde vendessem comida. Lembrava-me de ter passado, quando estava no táxi, por uma rua paralela a esta onde reparei nalguns restaurantes e lojas com as luzes ainda ligadas. Lembrava-me também que essas foram as primeiras luzes que vi depois de sairmos da autoestrada: entre a saída e a cidade percorri uma estrada nacional estreita e sem iluminação. Se não fossem os faróis do carro não me teria apercebido das casas que iam aparecendo, de forma irregular, ao longo da estrada, todas elas escuras, isoladas e enormes, com os seus portões, caixas de correio e alpendres.
A minha casa também tinha um alpendre, que era tal e qual como no anúncio: pequeno, e com uma cadeira de baloiço de madeira, que abanava ligeiramente com o vento. Pensei, quando saí, se alguma vez me iria sentar ali. Parecia ser confortável.
Pus-me a andar em direção à rua das luzes. O vento batia-me na cara, mas não me incomodava. Andei com calma, observando as casas do meu lado do passeio, e o muro de árvores altas que se estendia do outro lado da estrada. Não se ouvia nada a não ser o barulho do vento a bater nas árvores. Os poucos carros que vi estavam parados. Quando cheguei ao cruzamento com a rua paralela olhei em redor e senti que estava num sítio estranho – completamente estrangeiro e, ainda assim, familiar. Seria dos semáforos amarelos, das placas verdes, da tinta da estrada? Ou seriam simplesmente os efeitos psicológicos, em mim muito típicos, de uma certa adrenalina causada por exaustão?
Já passava das dez da noite e a maior parte das lojas e bares já tinha fechado. Entrei no único estabelecimento que estava aberto, uma espécie de pequeno armazém com várias estantes de metal carregadas de produtos de higiene, pacotes de comida, e frigoríficos cheios de bebidas. Cheirava muito a queijo derretido, o que me deixou um pouco enjoado. Peguei rapidamente num saco de pão de cachorros-quentes, numa barra de chocolate com pedaços de avelãs e na primeira garrafa de cerveja que consegui encontrar. Fui pagar: o empregado estava a ver um jogo de basebol na televisão. Perguntei como é que estava a ser o jogo, ao que ele retorquiu: aborrecido. Pudera, é basebol, mas não lhe disse isto. Paguei e saí.
Com o vento a bater-me nas costas pus-me de novo em andamento, de regresso a casa. Quando cheguei, fiquei uns instantes a contemplar o edifício, um pequeno apêndice de uma casa maior, com dois andares, cuja entrada ficava virada para o passeio e não para o lado direito, como a minha. Era uma casa antiga, mas não parecia muito desgastada. Tinha uma estrutura parecida com as outras casas da rua, naquilo que percebi ser um estilo.
Era exatamente aquilo que eu queria ter encontrado.
Entrei em casa e fechei a porta nos dois trincos. A casa continuava quente, apesar de vazia. Sentei-me no sofá e abri o saco. Comi dois pães enquanto olhava para as janelas que davam para o alpendre. Conseguia ver a casa em frente e um pouco do passeio e da rua principal. Perguntei-me se alguém me conseguiria ver lá de fora. Se sim, o que veria? Um homem de barba escura, casaco vermelho aberto, com uma cara branca e seca, típica de quem está com os horários trocados por diferentes meridianos, e com a sensação de medo e excitação que só o desconhecido consegue provocar. Suspirei.
Foi quando engoli o primeiro trago da cerveja, depois de ter acabado com o chocolate, que senti todo o cansaço e tensão acumulados do dia de viagem a virem ao de cima. A cevada fresca e ligeiramente frutada soube-me muito bem, e arrependi-me de não ter trazido mais garrafas da loja. Com a cabeça a relaxar, deixei-me cair para trás no sofá, e pus-me a olhar para o teto, enquanto sentia o corpo a ficar cada vez mais leve e solto. Se fechasse os olhos, adormecia. Queria tanto dormir. Dei mais alguns goles e, não sem ultrapassar alguma preguiça, levantei-me e fui para o quarto.
Deitei-me na cama, encostando a cabeça na cabeceira (desculpem o pleonasmo, mas estava cansado). Adormeci imediatamente. Quando acordei, nem uma hora se tinha passado. Ouvia-se o vento a bater na casa com muita força. Da janela viam-se as traseiras da casa, com muro cheio de arbustos muito grandes a abanar.
Lembrei-me, nesse momento, de uma noite na Gonçalves Crespo durante a pandemia, no período em que vivia com a Cândida. Tinha se abatido um temporal horrível e ouvia-se por toda a casa o vento e a chuva a baterem nas janelas. Lembro-me de estarmos juntos na cama a olhar lá para fora, a Cândida enrolada no seu cobertor laranja e eu enfiado debaixo dos lençóis, com meias nos pés. A dado momento demos as mãos e a Cândida começou a cantar aquela versão em português do “Candy Says” que o pai dela inventou quando ela era criança. A versão era mais ou menos assim, se não me engano:
Vou ver os pássaros voar
sobre mim
Vou vê-los a passar
por mim
Quando envelhecer
o que achas que vou ver
se conseguir fugir
de mim?
Acabei por adormecer, envolto numa paz imensa.
Anos mais tarde, acordado naquela cama em Maple Valley, Washington, Estados Unidos da América – muito longe de Lisboa e da Cândida – parecia que ainda conseguia ouvi-la, com a sua voz doce, a embalar-me com o vento. Não quis adormecer sem tomar nota dessa imagem: as árvores, o vento, a Candy, e o que achas que vou ver, se conseguir fugir.
Sentei-me na cama e abri a mochila para tirar o caderno. Devido à preguiça, acabei por despejar no chão tudo o que tinha lá dentro. Fiquei uns segundos no escuro a contemplar as coisas caídas, a ver se encontrava o caderno. Havia dois livros, uma revista, canetas, cabos e carregadores, headphones, um gorro, um cachecol, e uma revista de avião. Foi nesse momento, debruçado sobre o chão e ainda meio adormecido, que reparei na fotografia.