
Ninguém fez qualquer pergunta depois do que se passou. Ninguém perguntou como foi, nem como estava. O meu pai, a Cândida, o Pires, nada. Talvez não o tenham feito por medo, talvez por respeito, não sei. Nem a Armanda fez perguntas, anos mais tarde, mas também não precisou: contei-lhe tudo, ou quase tudo sobre o que se passou naquele dia. E contei-lhe como me senti, ou como me lembro de sentir: triste, desconfortável, mas sobretudo envergonhado por ter vivido aquele dia daquela maneira. Nunca mais seria capaz de esquecer.
A Armanda só me perguntou – admitiu que talvez fosse estúpido, mas que ela tinha curiosidade em saber, porque era comum em muitas pessoas que tinham perdido os pais – se eu sentia algum tipo de culpa ou remorso pelo sucedido. E eu dizia que não, que não sentia culpa alguma. E para ser sincero, nem sentia dor. A sensação mais forte que tinha, insistia, era de vergonha, daquela que queima, que nos dá raiva de nós próprios. Era uma sensação de ridículo atroz, que me dava pequenos ataques de raiva com diferentes graus de violência.
Em geral, conseguia controlar-me me em frente aos outros e parecer funcional, presente, e minimamente responsivo, mesmo que combalido. Aguentava o que tinha de sofrer por dentro. Claro que de noite, no silêncio da minha solidão, acabava por rebentar. Deitava-me na cama, enrolado nos lençóis, a chorar: agarrava a almofada com tanta força que a rasgava. Pensava no filme, na casa de banho, na sala de estar e queria tirar esse momento de mim, apagá-lo sem piedade, mas ele não parava de voltar, cada vez mais expansivo e total.
A única coisa que me acalmava por esses dias era fechar os olhos e lembrar-me da minha mãe. Na imagem que me vinha à cabeça, ela estava com o cabelo solto e com óculos escuros, num cenário veranil, a sorrir, em tons dourados. Era uma imagem tão bonita e etérea que nem parecia real. Pensei até se seria verdadeira, porque não conseguia identificar a sua origem – se era um fragmento de uma memória vivida (mas se era, de quando é que era?) ou se não passava de uma recordação de uma fotografia antiga com que me cruzei, algures na minha curta vida. Nunca resolvi esse mistério, e em todo o caso, não interessa muito.
Nesta história, nem o meu sofrimento nem as minhas memórias interessam, tal como as perguntas sobre mim não interessavam, no fundo, naquela altura. A partir daquele dia – o dia em que a minha mãe morreu – só um sofrimento (só uma pergunta) é que passou a interessar: a pergunta que a Armanda me fez no sonho. E o teu pai, como é que está?
Como é que está? Não é fácil responder à pergunta. Nunca foi, mas depois da morte da minha mãe tornou-se impossível, pelo menos de forma justa e verdadeira. Tive de o fazer imensas vezes, perante muitas e diferentes pessoas, numa série de situações ao longo do tempo, todas elas indesejáveis e confrangedoras a partir do momento em que a pergunta surgia. Não eram momentos nada confortáveis, e eu tinha de os ultrapassar rapidamente e de forma assertiva, por vezes com algum humor à mistura, o que tornava tudo ainda mais estranho e difícil.
O problema deste desconforto não era das pessoas. É legítimo que quisessem perguntar, que se interessassem genuinamente por querer saber, ou que pelo menos fingissem que queriam, com maior ou menor cinismo. Achei, durante muito tempo, que o problema era meu, devido às minhas sensibilidades controvertidas sobre a perda, a vergonha e a dor, que me faziam ficar irritado com a pergunta. Talvez algum amor-próprio, ainda que tímido, contribuísse igualmente para a irritação, reivindicando para a minha pessoa a atenção que estavam a dar ao meu pai, mesmo que esta fosse mais justificada e devida aos seus olhos.
Mas na minha primeira noite em Washington, de pé em frente à janela do quarto a ver as árvores das traseiras a abanar ao vento, pensei que o problema também não era meu. O problema, verdade seja dita, era com a pergunta em si. É que esta, pelo menos a meu ver, não estava bem feita, ou pelo menos não estava feita para que dali pudesse sair uma resposta acertada. Daí a minha dificuldade em responder. A pergunta tinha de ser outra, isto é, tinha de ser composta por outras palavras: não podia ser uma pergunta sobre o estado, nem sobre o espírito. Tinha, isso sim, de ser sobre o espaço, porque era aí que estava a verdade sobre o meu pai.
Assim, se em vez de “como é que está o teu pai” a pergunta fosse “onde é que está o teu pai”, eu conseguiria responder mais facilmente, sem grandes pruridos, porque aí sim estaríamos a falar corretamente sobre o que realmente se passava com ele. E ali, no quarto, ainda com o sabor da cerveja na boca e alguns bocados de pão entre os dentes, surgiam-me logo três respostas possíveis para a localização do meu pai. Uma, mais existencial; as outras, mais históricas.
Primeira resposta: o meu pai está na sala de estar da Infante Santo, de onde nunca saiu na verdade, desde que a minha mãe morreu. Às vezes está de pé, como quando entrou, e outras vezes está sentado, mas o que interessa é que está sempre lá, sempre com o mesmo ar: com os mesmos óculos, o mesmo casaco preto, o mesmo bigode, e o mesmo olhar abandonado. Não há televisão, e o jogo já acabou há muito. Em frente ao sofá só há vazio. O tempo passa e as pessoas falam – falo eu, sobretudo eu – mas ele não ouve. Não consegue ouvir nada. A sala é o seu ponto de rutura, um purgatório que se fechou em seu redor e que o acompanha para onde quer vá. Mesmo que não esteja na sala, nunca sai de lá. Não consegue, ou não quer, sair de lá, vá para onde vá, faça o que fizer, digam-lhe o que disser.
Eu dizia-lhe muita coisa, sobretudo perguntas. Ele não me dizia quase nada, muito menos respostas. Assim, tive de me levantar, e de aprender por mim a cuidar de nós, a fazer pelos dois, na nossa casa. Ele não se importou, nem me impediu. Manteve-se lá, minimamente ativo, pouco presente, muito melancólico. Uma figura triste e pesada, que eu sentia a afastar-se deste mundo todos os dias um pouco mais, até se tornar, pelo menos para mim, numa espécie complicada de estrangeiro, um colega de casa com quem a relação não passa da cordialidade, sem qualquer ponta de afeto.
Apesar desta nossa distância, dava para perceber que o meu pai estava em grande sofrimento. Eu também estava, mas não como ele, não de forma tão clara e potente. O meu sofrimento foi para dentro, muito para dentro, e quando já não podia aguentar mais, fechava-me, isolado, e escrevia sobre o sentimento, noite adentro, sem grande rumo. Foi o que foi preciso para sobreviver a esses tempos, e aos outros que viriam. Acho que sobrevivi. O meu pai não.
Onde está o meu pai? Segunda resposta: Não sei. Nunca soube ao certo, pelo menos durante dez anos. Houve um dia em que ele se foi embora, pouco depois de eu fazer dezoito. Não avisou, não explicou, disse apenas adeus, até logo, ligo quando chegar, e saiu. Levou uma mala, mas não levou o carro; levou alguns livros, muitos da minha mãe, e nenhuma fotografia. Ligava-me volta e meia, para saber como é que eu estava, e quando lhe devolvia a pergunta (a errada, porque não tinha coragem de lhe fazer a certa) dizia-me, com o tom mais seco do mundo, que estava a passear. Às vezes dizia-me outras coisas, vagas e aleatórias, com um tom mais vivo, ainda que algo melancólico. Coisas como: as luzes, as luzes. Ou então: o campo, um campo imenso, cheio de árvores. Ou ainda: o Ohio, filho, o Ohio. O Ohio é bonito.
Talvez seja, nunca fui. Agora estou em Washington, mas naquela altura estava em Lisboa, a tirar o curso, enquanto vivia sozinho na Infante Santo, com uma mesada generosa, transferida religiosamente no primeiro dia do mês. Usava o carro do meu pai, os casacos que ele deixou, e fui esvaziando-lhe a garrafeira. Também me pus a passear, pela cidade e fora dela. Tive uma banda, escrevi um blog, apaixonei-me algumas vezes. Sofri muito, pouco para fora, muito para dentro, o que me fazia escrever mais, mais e mais. Sofri, mas sobrevivi: formei-me, estudei no estrangeiro, e comecei a trabalhar. Não tinha grandes ambições, para lá de ambições literárias, mas tinha talento, tinha capacidade, tinha futuro, e tinha rotina. Tinha amigos, tinha uma namorada, e tinha uma casa, que era a minha, com as suas paredes e as suas divisões, cheias de momentos, memórias e sentimentos. Dor, sim, imensa, mas também alegria, beleza, romance e humor. Quantas noites não passei com a Cândida e algumas das suas namoradas a ouvir discos, quantas tardes o Pires e eu não ficámos a ver filmes e a decidir onde é que íamos jantar, e quantos dias não adormeci e acordei entrelaçado na Armanda, sem vontade de sair de cama?
Às vezes, durante este período, ainda me lembrava do dia: do computador, do filme, da casa de banho, e saía-me da boca uma voz que dizia: odeio-te. A vergonha tem uma acutilância muito cortante. Tentava afastar o sentimento, olhar para o concreto, para o que estava à minha frente. Não podia ignorar o passado, mas não queria lidar com ele. Só queria um pouco de paz, e um adormecer pacífico. Não pensava muito no meu pai, e às vezes até não me apetecia falar com ele. Era como se tivéssemos sido separados para sempre, e eu vivia bem com isso, por mais duro que parecesse.
Terceira resposta: onde é que está o teu pai? Em casa. Voltou, um dia. Apareceu com a mesma mala com que saiu. Tirando os cabelos brancos, estava igual. Não falou sobre o que se passou, onde esteve, com quem esteve, e como estava. Estava com o mesmo olhar com que tinha entrado em casa, treze anos antes, quando o Larsson meteu aquele golo. Parecia que nunca tinha saído, que nada tinha mudado, que a dor e o silêncio e o peso eram os mesmos, ou maiores. Estava na sala, agora ainda mais do que dantes, e a força que a sua presença emanava era insuportável.
Meti para dentro, claro que meti para dentro. Não foi fácil, não foi mesmo nada fácil. Escrevi, mas a escrita não ajudava. Falei-lhe, mas não era ouvido, ou pelo menos compreendido. Para que as coisas não se tornassem difíceis, nem sequer irremediáveis, achei melhor sair de casa. Fi-lo por mim mesmo, por não conseguir ocupar o mesmo espaço que ele. A Cândida disse-me que tinha visto um anúncio na Gonçalves Crespo. Fui lá ver, e em menos de três horas já tinha o contrato assinado.
Quando disse ao meu pai, ele não percebeu. Disse-lhe que tinha de ser, que tinha de sair. Ele disse-me que não queria que eu saísse. Saí à mesma. Ao fim de uma semana ligou-me, choroso, a dizer que sentia saudades minhas. E eu não soube bem o que lhe dizer. Podia ter-lhe dito tanta coisa, podia ter sido bruto, letal, depois de todos estes anos. Mas tive a pior sensação de todas, pior ainda que a vergonha: tive pena. Já a tinha tido antes, antes dele partir, mas não a nomeei, evitei ao máximo fazê-lo para que não tivesse de lidar com ela, mas agora não dava para escapar. Assumi que tinha pena do meu pai, e assumi que não conseguia viver com isso.
Então, com muito esforço e raiva, tomei uma decisão: vou preocupar-me com o meu pai. Vou dar-lhe atenção, ligar-lhe todos os dias, para falarmos. Vou casa dele jantar uma vez por semana, e fazer algum programa com ele ao fim-de-semana, o que acabou por se tornar num almoço ao domingo, num restaurante italiano barato ao pé de casa dele. Não podia faltar a esse almoço, por mais que me custasse – quando o fiz por uma vez ele foi-se abaixo de uma maneira que me magoou profundamente. Não queria voltar a passar por aquilo.
O vento acalma-se e assim se respondeu às perguntas. Não foi difícil, foi muito mais fácil do que era antes, e menos difícil do que os tempos que tive de viver depois do regresso do meu pai a Lisboa. Nessa altura, fui promovido e o trabalho tornou-se muito e muito exigente, ocupando-me os dias quase por completo. Apesar da minha atenção e esforço, o meu pai não parava de se afundar em tristeza e isolamento, o que me dava ainda mais pena, tornando a minha raiva interior quase incontrolável. Talvez por isso, e por outros motivos, a dado momento separei-me da Armanda. Parecia-me a única decisão a tomar, e no curto prazo senti-me relativamente vindicado. Mas depois comecei a duvidar se tinha decidido corretamente. Ainda hoje tenho dúvidas, ou se calhar pior: tenho certezas de que não foi a decisão certa. Discuti muito isto com a Cândida, que discordava de mim. Com o Pires, não – não falávamos muito sobre isto. Mas ele perguntava-me sempre, quando íamos almoçar à Rampa, às sextas-feiras à tarde, como é que eu estava. E aos poucos comecei a sentir-me desconfortável com a pergunta, tanto quanto ficava desconfortável com as perguntas sobre o meu pai.
Essas continuavam, claro. Continuaram sempre, até ao dia em que o meu pai morreu.


