Faz hoje um mês desde que cheguei a Maple Valley. Para celebrar, fui até à cooperativa agrícola, comprar salsichas do Wiscosin; uma espécie de pão brioche, mas com milho; e uma grade de cervejas produzidas localmente. Estou agora sentado no sofá de casa, na sala de estar, a comer. Está uma noite agradável lá fora.

A sala não está muito diferente desde que eu cheguei. Continua sem televisão, mas tem mais alguns livros na estante. Tenho lido muito, sobretudo à noite, e tem-me sabido bem. O último livro que li foi o White Album da Joan Didion, que me criou um desejo enorme de visitar a Califórnia. Arranjei igualmente, numa venda de quintal aqui ao pé, uma aparelhagem e alguns discos, que ponho a tocar enquanto como, como agora. Estou a ouvir uma coletânea de jazz, uma coisa meio anos oitenta, um pouco lamechas, mas bonita. No meu quarto, arranjei a secretária para conseguir escrever, e pus a fotografia do meu pai na praia junto à mesinha de cabeceira, ao lado da cama. Ficou tudo com um aspeto confortável.

Não comprei uma televisão, mas comprei um carro. Não se faz nada sem carro aqui. O carro é uma berlina, um modelo japonês que acho que nunca tinha visto antes em Portugal. Tem dez anos, mas anda. Dá-me jeito para ir aos centros comerciais, à cooperativa, aos bares e as outras vilas, aos montes e aos lagos, e à igreja, quando me apetece rezar. O rádio ainda funciona, e todos os dias procuro uma nova estação. Gosto sobretudo da estação country e da estação evangélica. Parecem-me exóticas e caricatas, vindas de um mundo que eu nunca achei que fosse real.

Comprei o carro a um tipo que costuma estar no bar ao lado da loja de conveniência, onde vou amiúde beber um copo de cerveja, antes de ir para casa jantar. Chama-se Greg. Claro que se chama Greg. Tem uma barba enorme, pontiaguda, e um boné escuro dos Seattle Sounders. Adora futebol, o que é raro por aqui – segundo ele. Damo-nos bem, já me convidou para ir a uns churrascos com os amigos, no fim-de-semana. Disse-lhe que ainda me estava a instalar, e que tinha os fins de semana ocupados, mas que um dia iria. Ele perguntou-me o que é que eu estava cá a fazer. Eu disse: estou a escrever um livro. Sobre o quê, perguntou-me Greg. Sobre uma mulher que vai dar à luz em Maple Valley, Washington. Chama-se Milly. Não, estou a brincar: para Greg ela não se chama Milly, nem eu estou a escrever um livro. Estou apenas a tentar refazer a minha vida, o que também não sei se é verdade, mas Greg não se importa, e muda de assunto para o que quer que esteja a dar na televisão, naquele momento, no bar. Quanto a mim, fico a pensar em Milly.

Encontrei Milly um dia, no centro comercial, há cerca de duas semanas. Eu estava a sair de uma loja quando a vi. Estava de costas, mas virou-se para olhar para uma montra e consegui reconhecê-la. Estava igual a sempre, bonita e jovem. Não parecia mais larga, apesar da barriga, que era bem redonda. Fiquei um pouco em choque, porque não estava a contar que as coisas se passassem assim – não estava a contar, confesso, que as coisas se passassem, ponto – e demorei um pouco até me encostar a um canto, de onde ela não me conseguisse ver. Estava com duas pessoas ao lado, dois homens: um mais velho, e o outro mais novo, ambos vestidos com calções, polos e chanatos. O mais velho seria o pai? E o mais novo? O irmão, um amigo? Um novo namorado? Deixei-os prosseguir caminho, acompanhando-os à distância, com cuidado para não ser visto.

Acompanhei-os até saírem do centro comercial e entrarem no carro. Continuei depois a segui-los, deixando um ou dois carros de distância entre nós, para não levantar suspeitas. De repente, estávamos numa zona de Maple Valley que eu ainda não conhecia, cheia de casas grandes, novas e bonitas. Quando viraram numa rua eu segui em frente, embora mais devagar, e na passagem observei o carro a parar junto a uma casa branca, com os tetos escuros. No regresso a casa pensei no que é que devia fazer, se devia fazer algo, e passei algum tempo a lembrar-me dos nossos passeios no Oeste, durante o meu mês de luto. Foram bons tempos, esses.

Nunca respondi ao e-mail de Milly, e ela também nunca me disse mais nada. Quem me disse muitas coisas, mas mesmo muitas coisas, foi a Cândida. Escreveu-me vários e-mails, alguns violentos, outros queridos, todos revoltados, ou tristes, à procura de saber onde eu estava e o que é que eu estava a fazer. Li-os a todos, sempre a custo, e respondi-lhe sempre com um verso da canção que ela me cantava. Porquê? Porque sou parvo, e porque não tenho coragem para lhe dizer o que quer que seja nesta altura. Se nem eu percebo bem o que faço aqui, como é que ela irá perceber? Como é que lhe posso explicar isto tudo? E então, sim, atiro ao lado. Faço-me de vivo, e de morto ao mesmo tempo. E evito dizer o que for, porque o que é é demasiado estranho para ser entendido.

Com o Pires é mais fácil responder, sobretudo porque o Pires só me enviou uma mensagem, muito curta, com poucas questões, apenas as principais: onde, porquê, quem, como, enfim. Acrescentou uma outra, que tinha que ver com a encomenda que lhe tinha enviado no dia antes de partir, uma mochila fechada e a transbordar de coisas. O que é suposto eu fazer com isto, filho: abri-la, guardá-la, queimá-la, o quê? Respondi-lhe apenas a isso, dizendo-lhe para guardar a mochila, que quando eu voltar de onde estiver vou querer reavê-la. Não sei se fui verdadeiro, mas não consigo defender-me muito neste momento, nem fazer planos muito longos. A mochila não tem nada de especial, apenas umas fotografias, uns cadernos, uns discos, umas canetas, e uns documentos, que todos juntos não passam de um conjunto de relíquias semioficiais do que foi a minha vida até ao momento da minha partida, e que talvez queira reencontrar se voltar, ou não, não sei. Mas queria que alguém as guardasse, só para o caso, e eu sabia que o Pires seria bom para isso. Foi o que eu lhe disse, de forma mais ou menos simpática. Pensei em acrescentar: não se preocupem, mas achei que era demais, sobretudo para mim. Fiquei em silêncio.

Quem não me tinha dito nada ainda era a Laura. Ao princípio achei surpreendente, mas à medida que os dias foram passando o seu silêncio tornou-se mais preocupante. Das duas uma, ou viria aí uma resposta violenta que me faria confrontar com o que lhe tinha feito, ou então um desprezo para a eternidade que me faria sempre pensar no que lhe tinha feito. Não sei o que seria melhor, mas sei que seria mau, e que eu o mereceria.

Recebi, no entanto, uma mensagem inesperada, há cerca de uma semana. Estava no quarto, a escrever sobre o que me tinha trazido até aqui, quando me chegou um e-mail da Armanda. Era um e-mail grande, muito grande, e começava com um duplo pedido de desculpas: primeiro, por nunca mais me ter dito nada, e segundo, por me dizer aquilo que ia dizer. E depois disse-me o que tinha sido a sua vida desde que nos tínhamos visto pela última vez, em Lisboa. Falava de livros que tinha escrito, de sítios que tinha visitado, e de como se tinha mudado para Londres, com um namorado, e de como era agora professora, e depois se tornou mãe, e de que foi muito difícil ser mãe mas que agora era tudo mais difícil porque o namorado tinha uma doença rara e estava a morrer, e ela não sabia o que fazer, senão escrever.

Escrever sobre o quê? Sobre, por exemplo, uma mulher perdida numa casa junto à praia, sonhando com um homem que deixou há muitos anos. Escrever sobre um pai que vai ao funeral do filho que abandonou, ainda antes deste nascer. Escrever sobre passeios em Londres entre o hospital e a casa, sobre vigílias junto à sala de recobro, sobre tardes a brincar com o filho, sobre noites com o namorado moribundo ao seu lado, sobre alguns discos e livros que tinha ouvido e lido, e sobre Lisboa, das saudades que tinha de Lisboa. Dizia que sentia solidão e um amor profundos que a ocupavam por estes dias, aos quais adicionava a exaustão de estar sozinha a cuidar do filho, a dar aulas, e a fazer por cuidar o que podia do marido que se encontrava em coma.

As imagens e sentimentos surgiam encadeados em catadupa, numa escrita muito crua mas cuidada. Às vezes tinha de ler duas vezes a mesma passagem para perceber o que é que se estava a passar, porque as intersecções entre pessoas, ideias, lugares e dores que estavam a ser descritas eram muitas e muito instáveis. Mas o quadro geral, mesmo que caótico, era terno e bonito, ainda que trágico e violento. Entrou-me pelos olhos adentro e abalou-me.

No final do e-mail, a Armanda pedia desculpa, uma terceira vez, antes de perguntar, de forma muito direta, como é que eu estava, se estava tudo bem, e de rematar o e-mail com a seguinte questão: e o teu pai, como está?

O meu pai está ótimo, obrigado. Já não penso nele há muito tempo. Nem voltei a pensar nele depois de ler o e-mail. E, para ser sincero, não voltei a sonhar contigo desde que li o teu e-mail. Não sei o que te dizer, não sei como te dar algo em troca pela dor que partilhaste comigo. A única coisa que acho que posso dizer é que vou ser pai, se é que não sou já, de um menino. Não sei como se chama, nem sei como é, nem como está. Se quiser, posso saber hoje, entrando no carro que está parado lá fora e guiando uns bons vinte minutos até perto da zona do lago, onde as casas são grandes e a vida parece idílica. Posso parar o carro atrás do outro, e bater à porta, dizer olá ao pai, à mãe, ao irmão ou amigo ou namorado e perguntar pela Milly e pela criança, apresentando-me como o João, John, from Lisbon, o amigo do Greg, e da Cândida e do Pires, e que é o pai da criança. E posso esperar que várias coisas aconteçam, desde me expulsarem de casa até me receberem de braços abertos. Talvez me emocione com a criança, ou talvez fique horrorizado, ou talvez veja ali, outra vez, o meu pai, e tudo não se deixe de passar como aqueles filmes melodramáticos americanos, a preto e branco, onde as coisas eram simples e brutais, sem grandes pruridos, e o personagem principal tenha uma qualquer epifania que o leve a ser algo diferente do que era.

Só que eu não sei o que quero. Não sei se me quero confrontar assim com a vida. Não sei se não quero antes estabelecer-me aqui, em Maple Valley, ou então noutro sítio aqui ao pé. Não sei se não quero pegar no meu carro e mudar-me para sul, para a Califórnia, ou então para o Oregon, para o Nevada. Não, para o Nevada não: Califórnia, Malibu, algo assim como Lisboa, com mar e sol. Se calhar devia voltar para Lisboa, digerir esta viagem como um mero impulso psicótico, de um luto pouco trabalhado, e voltar à vida, arranjar um terapeuta, comprar o apartamento de Moscavide, e viver o resto dos meus anos a jantar com o Pires na Rampa, a ver casas com a Céu, a tentar construir uma relação afetiva e emocional adulta com uma mulher, e a comprar um carro melhor que este que tenho aqui. Ou se calhar devia ir para Londres, cuidar de ti, Armanda, e do teu filho; afinal, quem melhor do que eu, um filho sem pai, para o ajudar a viver com o trauma que o vai acompanhar para sempre?

Só que eu vou ser pai, se é que já não sou. E isso torna tudo diferente, Armanda, torna tudo completamente diferente. Tudo o que foi, tudo o que é. O que pode ser já está, já é. Vou ser pai, mesmo que não o conheça, mesmo que não o veja. Tenho um filho, e ele será isso, porque é isso que somos todos, e portanto teremos sempre uma ligação, mesmo que eu não queira. Serei sempre, para ele, alguma coisa: no mínimo uma ideia, no máximo uma raiva. E não sei lidar muito bem com isso, não sei o que quero ser para ele: se um silêncio ou uma presença, se um fantasma, ou uma pessoa. Porque uma presença vou ser sempre, quer esteja quer não, a pairar sobre ele. Sei do que falo. Sei muito bem do que falo.

Sei que ele estará bem, onde estiver, e que por agora eu estou aqui perto. Tenho bebido cerveja, montado uma casa e escrito sobre mim, sobre o que sofri até chegar aqui, e agora estou a pensar nos meus próximos passos. Tudo parece possível, mas qualquer possibilidade é também, em si mesma, uma consequência, e eu não sei com que consequências é que quero arcar. Por isso arrasto-me, leio, passeio e, sobretudo, sabes o que é eu faço, sobretudo, Armanda? Rezo.

Sim, rezo. Vou até à Igreja que fica perto da estrada nacional. Não é católica, mas até prefiro que não seja. É muito ampla, muito clara, e em vez de cadeiras tem uns bancos. Quando entro, sinto uma grande paz. Ninguém me vem ver ou falar. Ouço apenas os carros lá fora, a passar, a passar sobre mim, e aí penso no que será de mim. E sento-me e fecho os olhos, e não me lembro da minha mãe, nem do meu pai, nem de ti. Lembro-me apenas do meu quarto na Infante Santo, do teto do meu quarto. Não preciso de dizer nada, de me benzer nem nada. Penso apenas no teto, e penso no que desejo, e penso no que devo querer ou desejar. Depois penso no som dos carros, e penso no verão, e depois penso numa criança que um dia, quando falar, me vai chamar pai, e que quando eu não estiver com ela, ou porque nunca estive, ou porque estive, mas depois parti, vai soltar, tal como eu soltei tantas vezes, um murmúrio, um lamento, um pequeno grito, um mantra, algo que ora acalma, ora entristece, mas que é meu, é parte de mim, e que digo agora, aqui, como forma de oração, em meu nome, e no teu, filho, e no teu. Pai, pai, pai.