Um dia acordei. Tinham-se passado seis meses. Estava na Gonçalves Crespo, a levantar-me para ir trabalhar. O rádio estava ligado nas notícias enquanto tomava banho e me vestia. Era um dia como os outros. O café de máquina não era bom, mas era café, e isso bastava-me. Saí e pus-me a descer a Loulé para ir apanhar o metro para ir para o trabalho. Sentia-me bem.

Tinha voltado ao escritório e as coisas estavam a correr como sempre correram. Já me tinham dito que ia ser promovido daí a uns tempos, o que significava mais trabalho e mais dinheiro. Mais uns euros para a conta, dizia para mim mesmo, enquanto olhava para o Marquês ao fundo. Já tinha uns euros simpáticos na conta, depois de ter vendido a Infante Santo a um casal alemão da minha idade, esses sim com muitos e bons euros, capazes de pagar a pronto o que a Cândida me fez pedir pelo andar. Eu tinha achado o preço exagerado quando ela o sugeriu, mas a verdade é que em menos de duas semanas estava já a assinar o contrato-promessa. Festejámos, a Cândida e eu, com um jantar nas Amoreiras, no “meu” restaurante japonês. Fizeram-me uma festa quando me viram, mas não contei à Cândida porquê. Pedi uma garrafa e brindámos. À vida, disse-me ela; à vida, disse eu.

Desde então que a Cândida andava a ajudar-me a comprar uma casa nova, mas eu não andava satisfeito com o que encontrava. Queria linha verde, mas só via casas com ilhas nas cozinhas e com quartos interiores. Marvila era longe, Campo de Ourique não tinha metro, Avenidas Novas nunca, jamais. Pensei em comprar a Gonçalves Crespo, mas sabia que o melhor para mim era fugir dali, dar o salto para outra coisa, para uma coisa nova. Mas a única coisa (são três vezes “coisa”, eu sei, eu sei) que conseguiu captar a minha atenção foi um pequeno andar que ela tinha descoberto recentemente em Moscavide, um apartamento pequeno, origem circa anos zero, com boa planta, boa altura e boa luz, e que, bem arranjado, podia ficar de sonho.

Nunca tinha pensando sair de Lisboa, ou pelo menos não desta forma. Mas Moscavide parecia algo bom, perfeito para um reinício. A Cândida achava que sim, que estava a um bom preço, e que ficava num bom sítio, com vista para o rio. A Céu não disse nada, não por ser a Céu, mas porque já não existia – ela e a Cândida tinham-se separado, para minha grande alegria. Disse à Cândida que ela ia ficar bem, que a Céu não era uma mulher à altura dela. A Cândida ainda sentia saudades. Normal.

Levámos o Pires um dia a ver o apartamento. O Pires não desgostou, mas também não elogiou por aí além. Andava em baixo, tal como a Cândida, mas por razões diferentes. A Rampa tinha fechado, e aquilo tinha-lhe afetado uma dinâmica qualquer existencial, o que levava a pequenas perturbações melancólicas. Ainda assim, disse que havia potencial, que havia muito potencial ali, no meu apartamento de sonho em Moscavide. Depois perguntou-me se a Laura já o tinha visto, e eu disse que sim, e que tinha gostado. 

A Laura era recente. Também era advogada; conhecemo-nos numa negociação em que ela representava a contraparte. As negociações foram duras e prolongadas, mas lá concluímos o negócio. Nessa noite, exausto, fui ao Centro para relaxar, e encontrei-a. Encontrar alguém no Centro é meio caminho andado para me apaixonar, como sabem. Desde então que andávamos a ver-nos, nada de muito desenvolvido ainda: uns passeios e programas aqui e ali, algumas noites nas nossas casas respetivas, e um fim-de-semana na Costa Alentejana, passado todo dentro de casa, devido à chuva, a falar de discos, filmes, memórias, e desejos.

Achava piada à Laura, e acho que era recíproco. O Pires e a Cândida estavam contentes com ela, achavam que finalmente tinha conhecido alguém que me faria esquecer a Armanda de uma vez por todas. Eu ainda sonhava com a Armanda, pelo menos uma vez por semana. Continuava a aparecer sentada na sua mesa, com os braços cruzados e o olhar fixo, o riso provocador, sem nunca dizer nada, sem nunca responder a nada que eu perguntasse. Ainda assim, já não acordava ansioso e a precisar de passear. Ficava apenas nostálgico por uns segundos, e depois esquecia-me, e seguia.

Às vezes acontecia-me o mesmo quando me lembrava do meu pai. Murmurava baixinho pai, pai, pai, e depois fechava os olhos, e depois passava, e as coisas podiam continuar como estavam. Nalguns momentos de maior cansaço ou emoção a sensação era mais pesada. Uma vez, em casa da Laura, depois dela me ter dito uma coisa querida, tive de me conter, e de me conter à séria, para não rebentar. O afeto é uma coisa tramada para pessoas como eu: liberta uma vulnerabilidade que, simplesmente, não aguentamos.

Espalhei as cinzas do meu pai na praia, junto ao mar. Fui lá uma manhã, bem cedo, num dia muito ventoso mas limpo. Cheguei perto da água, abri a urna e pousei-a na areia. Fiquei de pé, com os pés na água, até o vento ter levado todas as cinzas. No fim, olhei para o céu, e disse em nome do pai, do filho e do espírito santo, e fiquei em silêncio. Depois peguei na urna vazia e coloquei-a dentro de um caixote do lixo que havia no parque de estacionamento. Entrei no carro e fui-me embora, sem pensar muito no que tinha feito, e porque é que o tinha feito.

Também não pensava muito em Milly. Não valia a pena. O fim foi triste, mais para ela do que para mim, mas já tinha sido. Já era, para todos os efeitos, passado. Quando passava na Rua de Angola lembrava-me ocasionalmente das nossas conversas e da sua pose a dormir. Lembrava-me da forma muito terna com que tinha gostado de mim. Mas fechava o assunto aí, na minha cabela, mudando a minha atenção para outra coisa, qualquer coisa que estivesse à mão, como um programa com a Laura, uma imagem sonhada de Moscavide, ou o dia em que coloquei todos os mapas que tinha feito dos Estados Unidos no lixo.

Só que nesse dia, seis meses depois do final do período de luto, eu estava no metro quando recebi um email de Milly – Mildred Margaret Walters para os amigos. Vinha sem assunto. Achei que podia ser uma carta amigável, uma recaída emocional mas inofensiva, enfim, qualquer coisa leve com que eu conseguisse lidar, sobretudo estando no metro, ainda a começar o dia.

Milly começava por dizer como tinha sido o seu regresso a casa, ainda sentir com imensa candura e saudade os nossos tempos juntos em Lisboa, mesmo que Lisboa para nós nunca tivesse passado de um bairro. Depois dizia o quão dura tinha sido a nossa separação, e quantas vezes, nos dias a seguir à nossa despedida, se procurou consolar com o facto de ter sido, apesar de tudo, uma coisa boa, honesta e bonita, mesmo que efémera. Uma espécie de summer date, como nos romances ou nos filmes

Gostava mesmo de ti. Sei que havia qualquer coisa pesada em ti, percebia-se a milhas, apesar de tu teres tentado sempre escondê-la, ou com piadas, ou com silêncios; mas eu percebia que esse peso, fosse o que fosse, era uma grande razão para a tua força, e também para a forma pura e sensível com que vivias a tua alegria. Li isto e fiquei no limite das minhas capacidades emocionais, ao ponto de ter de sair da carruagem, duas estações antes do escritório. Mas pior ainda estava para vir.

Para Milly, o regresso aos Estados Unidos foi difícil. Estava muito nostálgica e triste com a despedida de Lisboa, tanto que após um mês no Wiscosin decidiu ir visitar os pais a Washington, à cidade onde eles viviam, que se chamava Maple Valley. E que quando chegou a Maple Valley não se lembrava do quão verde aquilo era, e a natureza e o ar e todo aquele bucolismo familiar fizeram-na ficar ainda mais melancólica, e até cansada, e até um pouco enjoada. A mãe começou a estranhar tanto o cansaço como os enjoos, e perguntou-lhe se ela estava bem, ao que Milly disse que achava que sim, apesar de estar muito sensível do ponto de vista das emoções e sem grande vontade de comer, e a mãe um dia disse que achava que era melhor ela ir ao hospital. E quando foi ao hospital fizeram-lhe uma série de exames, e descobriram que ela estava grávida.

Quando li a palavra bebé – a expressão que ela usou foi “estar à espera de um bebé” – fiquei com uma sensação estranha e violenta dentro de mim. A única vez que me tinha sentido assim, tão visceralmente afetado, foi quando soube que a minha mãe tinha morrido. Agora não estava na sala de estar, mas sim no meio de um grande corredor vazio, iluminado por luzes brancas e enormes, onde cada passo se perdia. Não aguentei e pus-me a correr para fora da estação, à procura de ar. Uma vez lá fora virei-me e vi um jardim, para onde fui e me sentei, continuando a ler.

No início, Milly ficou tão desconcertada com a notícia como eu. Nunca tinha pensado seriamente sobre a maternidade, se era algo que desejava ou não, e agora estava perante a realidade do que vinha, e dos efeitos que teria sobre a sua vida. Ao mesmo tempo, sabia que o filho só podia ser meu, e que eu estava aqui, a não sei quantos quilómetros de distância. Havia muitas pontas soltas, muitas perguntas que precisavam de ser respondidas, e uma grande confusão sobre qual o melhor caminho a seguir. Nas primeiras noites sentiu-se desesperada e sozinha, sem saber o que fazer. Até que não aguentou mais e abriu-se com a mãe, que a confortou e disse duas coisas. Primeiro, que ela e o pai lhe dariam todo o apoio que ela precisasse, sempre que precisasse. E a segunda coisa que a mãe lhe disse, foi que achava que Milly teria de me contar sobre o bebé, que eu tinha pelo menos o direito a saber da sua existência. O que eu fizesse com essa informação, era comigo.

Depois disto, Milly voltou ao Wisconsin para acabar o ano letivo, antes de regressar definitivamente para Maple Vally, onde se instalou em casa dos pais. Passava os dias a passear, a dar aulas de português online, e a ler livros sobre a Califórnia – lembra-me Portugal, não sei porquê. Descobriu que ia ter um rapaz, que dava imensos pontapés, sobretudo quando ela estava sentada. Milly amava-o, mesmo não o conhecendo. Emocionava-se quando o via nas ecografias, quando os médicos lhe diziam: está aqui um pé, está aqui uma mão, está aqui o nariz… Era uma coisa estranha, muito profunda e inexplicável. Nunca me tinha sentido assim, John, disse ela, com tanto amor por alguém que está a tornar-se, que está ainda a caminho de ser. Um dia, estava a olhar para a sua barriga ao espelho, a sentir o bebé a mexer-se, quando, de forma involuntária, começou a chamar-lhe John. Assustou-se imediatamente quando se apercebeu disso.

Não me lembro muito bem do que se passou depois de ler essa passagem do email. Só me lembro de acordar, no sofá de casa, com uma chamada do escritório. Olhei para o telemóvel e vi que tinha umas de Laura, a dizer que gostava de mim, e uma mensagem da Cândida a perguntar se eu já tinha decidido sobre o apartamento de Moscavide. Eu tinha decidido. E a primeira coisa que fiz foi agir.

Primeiro, liguei para o escritório e disse que estava tudo bem, mas que tinha de me ausentar por uma semana. Motivos pessoais. Depois liguei para a Cândida, e disse que em princípio era um sim, o apartemento, mas precisava de uma semana para confirmar alguns detalhes, porque, sei lá, motivos pessoais. Estás a ser muito vago, disse-me ela, e tinha razão, porque eu estava a ser vago, mas deixámos as coisas assim. Depois liguei para a minha senhoria da Gonçalves Crespo e disse-lhe que queria denunciar o contrato, e que iria tirar as coisas de casa, e que a casa estaria livre daí a uma semana. Motivos pessoais, sabe? Não sei se soube, só sei que não protestou, e eu mais tarde liguei para uma agência de mudanças e marquei para virem buscar as minhas coisas daí a dois dias e que fossem despejar tudo num armazém alugado em Barcarena, armazém esse que aluguei numa chamada feita cerca de trinta minutos antes de ter falado com a empresa de mudanças.

Depois de todas estas chamadas fiz uma mala com roupa e preprarei duas mochilas, tendo colocado a segunda mochila num caixote que acabaria por enviar por correio para casa do Pires, seis dias depois. Depois liguei à Laura e perguntei-lhe se tinha programa para a noite, e ela disse que não, e então combinámos e fomos ver um filme ao Nimas – uma reposição do terceiro volume das Mil e Uma Noites do Miguel Gomes (aquele segmento da competição de canto dos tentilhões é o melhor filme que algum português alguma feito) – e depois fomos jantar, e depois do jantar fomos para minha casa, para a minha cama, onde a Laura adormeceu, com a cabeça em cima do meu peito e com a mala e a mochila debaixo da cama.

Enquanto isso, eu olhava para o teto e pensava na autorização de viagem que tinha pedido e no bilhete de avião que tinha comprado para Seattle, umas horas antes. Saía daí a uma semana. Não preguei olho, nessa noite.