Estava a passear pela minha cidade, um mês e pouco de luto depois. Tinha deixado a Milly a dormir na Gonçalves Crespo. Saí de casa sub-repticiamente, com todo o cuidado para não a acordar. Precisava de espairecer.

Tinha tido o meu primeiro sonho com a Armanda sentada numa mesa a olhar para mim. Estávamos no que parecia ser o pátio de um palácio, num dia de sol. Ela estava sentada, com a perna direita cruzada por cima da esquerda, os braços cruzados, e óculos escuros. Sorria, muito ao de leve, e não me dizia nada. Eu perguntava-lhe o que queria, o que se passava, e ela nada, nada de nada. Só a pose e o silêncio, e a minha irritação e frustração, bloqueando-me por completo.

A noite estava fresca e agradável. Pensei no que é que o sonho poderia significar, e depois pensei porque é ficava tão frustrado quando a Armanda não me dizia nada. O meu pai morreu e não soube nada dela, e eu sabia que a culpa de não saber nada era minha, mas ainda assim, não sei. Esperei que fosse diferente. Esperava sempre que fosse diferente.

Mas até quando é que iria esperar? Estava já nos Mártires da Pátria quando me pus a pensar seriamente sobre a minha situação atual. Sentei-me num banco, em frente à estátua do Doutor Martins. Um casal de miúdos, provavelmente estudantes, estavam nas escadas da faculdade de medicina a namorar. O banco estava um pouco húmido, mas não me incomodava por aí além. O que me incomodava era o que me faltava, e o facto de não o conseguir nomear.

Respirei fundo e pensei: porque é que estava a fazer o que fazia? Os passeios, os hotéis, os livros, as Amoreiras, as casas, porquê? Porquê isto tudo, porquê este caos? Era para compensar algo, sei lá, uma falha, uma perda, um desejo? Anos e anos a desejar, a falhar, a perder, desde o momento em que puxei a tampa da retrete, na casa de banho das visitas? Porque é bebia tanto, vagueava tanto, amava tanto? Seria por raiva, por saudade, ou por melancolia? Onde é que eu queria chegar? Ao Ohio, como o meu pai? Ou a outro sítio? O que é que eu estava a construir? Ou a perder? Já não era o filho, ou era? Quem é que eu era?

Ainda era novo, apesar de todas as minhas vidas. Era advogado, o que não era espetacular, mas era uma carreira, apesar de tudo. Mais do que ser, ter: tinha um emprego, uma casa, um futuro. Tinha um carro. Não tinha pais, não tinha família, não tinha ninguém para me receber ou para se preocupar comigo que não a Cândida e o Pires, e este último apenas uma vez por semana. E tinha a Milly, agora, só que a Milly… A Milly ia acabar o programa de intercâmbio em breve, regressando à faculdade nos Estados Unidos – que eu nunca sabia se ficava no Wisconsin ou no Wyoming (acho que era no primeiro). Ela queria que eu regressasse com ela, que fosse viver para os Estados Unidos com ela. E eu pensava, como pensava sempre que uma questão de extrema magnitude existencial se me punha à frente: porque não? Porque não fazer as malas e ir com ela? Vendia a Infante Santo, com a ajuda da Cândida, e levava o dinheiro comigo. Comprávamos uma casa algures, num Estado com mar, numa small town que nos agradasse. Eu queria Washington, mas iria para onde ela fosse. Iria estudar qualquer coisa, arranjar um trabalho bom, sério, leve, e ficar com ela. Cortar a relva aos sábados de manhã, ler livros todas as tardes, passear muito por parques, florestas, rios. Iria amá-la com a dignidade e leveza que ela merecia, compondo-lhe momentos de felicidade real, tocantes como os seus dedos, ou o seu sorriso. Montaríamos uma vida, uma nova vida, que seria a minha vida para sempre, ao seu lado, para sempre. Nunca teríamos filhos.

O casal de estudantes levantou-se, deu a mão, e desceu para a Pena. Ouvi um movimento atrás do banco e quando me virei vi um galo, grande e escuro, com as crinas vermelhas e gastas, muito caídas. Pensei: um galo em pleno centro, em frente à faculdade de medicina, a passear como se isto fosse apenas uma aldeia. Foda-se. Como não amar esta cidade?

Como não amar esta cidade – pensei nisso, pensei muito nisso. Esta cidade era tudo para mim. Podia atravessar todas as ruas e espaços, desde o rio até Carriche, que teria uma história para contar sobre todos. Consigo apontar para várias casas e nomear pessoas que viveram ali, amores que tive, dores que me ocorreram, e muitas, tantas imagens. Os meus pais não eram daqui, mas eu sempre fui, e sempre gostei de ser. Saí, viajei, voltei: nunca encontrei local como este, tão bonito como este. Não pelas pessoas, não pelas casas, não por nada a não ser o ar. Há qualquer coisa neste ar, nesta combinação atmosférica que torna a cidade especial e irresistível. Com tudo de mau ou inconsequente que tenha, com todos os sonhos que destrua, com toda a violência que se propague. É um envolvimento, uma história, uma essência, e uma parte de mim. Galos no meio do parque. Como é que isto se explica?

Como é que seria se eu cá ficasse? Vestiria o fato, sem gravata, e voltaria ao escritório. Venderia a casa da Infante Santo, e arranjaria outra casa para mim, mais pequena, algures por aqui. Rasgaria os mapas e os cadernos, queimaria as roupas e os livros, atiraria as alianças dos meus pais para o fundo de um qualquer poço. Deixaria de beber, depois de ter bebido todos os vinhos da garrafeira, e passaria a ter rotinas, estruturas, e um plano poupança para a reforma. Arranjaria alguém, uma mulher, não como a minha mãe, ou a Armanda, ou a Milly, alguém que eu pudesse amar e com quem pudesse viver aqui, num apartamento de sonho por cima de Santa Apolónia, pequeno, velho, mas nosso, cheio de livros e filmes e histórias, alguém com quem pudesse ir jantar fora, contar histórias, fazer histórias e ir à praia nos dias de sol, e nos dias de chuva ficar em casa, ou no cinema. Ter-nos-íamos um ao outro, e à cidade. Faríamos o futuro aqui, na cidade, contra a inflação, a crise climática, o desmoronar da ordem internacional, e o avanço da inteligência artificial. Seríamos o que somos, livres, cínicos, boémios e, claro, lisboetas. Nunca teríamos filhos. E o resto não interessaria.

Esquerda, direita, América, Lisboa. O céu já estava a ficar mais claro, o que significava que ia amanhecer em breve, e que a Milly iria acordar. Pensei na Milly, a sorrir, deitada na cama. Pensei no meu pai, sentado na sala de estar, a olhar para a televisão. Pensei na minha mãe, na praia, sempre. Não pensei na Armanda. Não pensei em mais nada. Fechei os olhos e disse: em nome do pai, pai, pai… Respirei fundo. O galo não cantou.

Pus-me depois a caminho de casa. Sentia-me bem, com fome. Olhei para as árvores do jardim, para duas galinhas que estavam junto às traseiras do restaurante. Pensei se o restaurante volta e meia não pegava numa ou noutra e as cozinhava. Se sim, como não amar esta cidade? O guarda da embaixada alemã acenou-me, e eu acenei-lhe de volta. Um emigrante indiano estava no campo de basquetebol a lançar da linha dos três pontos. Três tendas de sem-abrigo estavam montadas no parque. Admirei a casa vermelha da Gomes Freire, e pensei que devia dizer à Cândida para tentar vendê-la.

Como seria em Washington? Ou no Ohio, ou no Wyoming? Ou seria Wisconsin? O meu pai esteve em todos. Tinha fotografias de todos esses sítios. Conseguia ter sonhos com eles, se quisesse – mesmo se não quisesse, podia ter. Os sonhos são coisas muito bonitas, porque nos puxam para dentro de formas que não conseguimos replicar quando acordados, por mais força que tenhamos. Pegam no que temos, misturam com o que somos e devolvem-nos algo em forma de viagens, caminhos, propostas, questões. Não são sempre bons, mas é a vida, não podemos pedir tudo. Temos de saber receber o que vem. Mas diferente de receber e de sonhar é viver, estar acordado. Eu não sabia o que era o Ohio, nem sequer Washington: eram apenas imagens, quanto muito sentimentos. Mas eu sabia o que era Lisboa. E sim, era um sentimento, mas era um sentimento muito real. Tinha cheiro, toque e, sobretudo, tinha morte. Tinha muita morte, Lisboa, o que fazia com que tivesse muita vida, muita possibilidade, porque estas coisas andam sempre juntas. Eu teria de morrer, ao ir para os Estados Unidos, mas aqui eu já morri, já morri tantas vezes que lhes perdi a conta. Aqui fui e portanto aqui posso ser, e posso ser sempre.

Antes de entrar em casa vi dois turistas parados em frente à pensão açoriana. Davam as mãos enquanto fumavam cigarros, ainda vestidos com o pijama. Lembrei-me, não sei porquê, da única vez na vida em que achei que ia mesmo morrer. Estava com a Armanda em Itália, a viajar de carro pelo sul. Era de noite, e chovia muito. Eu tinha bebido e estava no lugar do morto, enquanto ela conduzia. Não havia nenhum outro carro na estrada, e estávamos a conduzir a uma velocidade moderada. De repente, um camião ultrapassou-nos pela esquerda, mas encostou-se demasiado à nossa faixa e bateu-nos no carro. Ela conseguiu controlar o voltante até bater na berma. Ficámos bem, parados por um momento, a olhar para o nada. Depois ela ligou o carro, saiu da berma, e continuou a conduzir. Parámos mais à frente, numa bomba de gasolina, e ela desatou a chorar quando desligou o carro. Abracei-a. Ficámos ali e dormimos ali, naquele carro, naquela bomba, nessa noite. Nunca mais voltámos a falar do acidente.

Pensei em Milly ao entrar em casa. Pensei nos nossos passeios, nas nossas noites, nas nossas canções. Sabia que ia ter saudades dela. Mas também sabia que o meu luto tinha de acabar, e que me tinha de pôr a mexer. A vida é isto, e não passa disto: morte, morte e mais morte. São as regras; eu só estava a jogar por elas. Teríamos sempre Lisboa, naquilo que foi uma outra vida, que não podia ser mais.

Quando entrei em casa fui para o quarto. Ela ainda dormia. Deitei-me ao seu lado, devagar, e fiquei a ver o dia a nascer, pela janela. Depois adormeci.