Houve uma altura em que rezava. Não era muito novo, já conhecia algumas coisas. Já sabia, por exemplo, o que era a pornografia – mas não foi pela pornografia que comecei a rezar. Comecei a rezar pela oportunidade, por sentir que estava a falar com alguém, ou melhor: por sentir que podia falar com alguém, que alguém me podia ouvir, como eu gostava que me ouvissem, sem nenhuma espécie de barreira. Tinha algum pudor com o que dizia, claro, mas isso era porque não olhava para o ato de oração como algo mais do que um desabafo. Não armava qualquer ritual quando rezava, limitando-me a fazer como a professora de catequese do colégio me tinha ensinado – uma tipa um pouco chata e sensível, mas com quem eu até engraçava, por ser muito prática. Ela ensinou-me a fixar um ponto, algures à minha volta, e a dizer as palavras e começar, apenas. Então eu deitava-me, à noite, de barriga para cima, a olhar para o teto, e dizia para fora: em nome do pai, do filho e do espírito santo, e depois começava. Começava a falar, para dentro, para os meus pais não me ouvirem, e eu sei que pode parecer estranho, todo esta forma introspetiva e comida de fazer as coisas, mas tinha significado – tinha sim, tinha sentido. Eu sentia que, algures naquele teto, naquelas paredes, naquele espaço, alguém me estava a ouvir; que alguém estava atento às minhas declarações, soltas e desconexas, contraditórias, irrefletidas e, devo dizer, chatas. Que alguém estava, algures, a ouvir, e quem sabe, a sentir-me.

Depois a minha mãe morreu, e eu deixei de rezar. Esqueci-me, com tudo o que se passou. Quando me ia deitar, ficava no quarto tal como fiquei naquele dia, dois dias depois da cremação do meu pai: sentado, a olhar para o chão, para o espaço que existia entre os meus pés. Já não era o mesmo espaço que era dantes, porque, enfim, a vida, e os gostos, e as coisas e isso tudo, mas o sentimento era quase o mesmo. Em vez de falar, de procurar respostas, esperava que alguém ou algo me desse a resposta, ou pelo menos uma palavra. Mas tudo o que tinha à volta era silêncio, e por dentro, estava tudo demasiado confuso para conseguir dizer fosse o que fosse.

Esse dia foi o primeiro dia, após muitos anos, em que voltei a dormir na Infante Santo, naquela que voltava a ser a minha casa. Não tinha feito qualquer mudança, nem resolvido o contrato de arrendamento da Gonçalves Crespo. Pensei, aliás, muito sobre vir – se seria um erro ou não, voltar ao sítio onde tudo foi, onde tudo foi o que foi. Mas estava sentimental, como nunca estive na vida, e, portanto, deixei-me seguir as minhas sensibilidades, mesmo que irascíveis e problemáticas. Levei a urna do meu pai comigo – outro erro, talvez, mas quem é que estava a controlar? – e pu-la na mesa de centro, na sala de estar, em frente à televisão.

A televisão já era outra, tal como a mesa, o sofá, o tapete, e o candeeiro, mas a disposição mantinha-se a mesma. A casa estava mais vazia, mais espaçosa. Andar por ela era como passear num deserto, tal o espaço e o vazio, interrompidos por muito poucas coisas, colocadas de forma estranha, demasiado isoladas umas das outras. As paredes estavam vazias, brancas; os armários despejados, e o chão de madeira brilhante, muito bem tratado. A única coisa que se mantinha tal e qual como era, e como sempre foi, era o quarto dos meus pais.

Entre no quarto, nessa noite. Lembrava-me bem da última vez que lá tinha estado, pouco depois do meu pai partir. Tinha ido ver o que tinha ficado, e foi aí que reparei que tinha ficado tudo. A roupa da minha mãe, a cama feita com os lençóis, as fotografias dos dois nas mesas de cabeceira, por baixo das biografias de personagens históricas, na mesa dela, e de policiais americanos baratos, na mesa dele. Em cima dos livros do meu pai estavam também as alianças, as duas. Tudo tal e qual como estava na noite, anos mais tarde, depois da sua morte: as alianças, os livros, as fotografias. A cama feita de lavado, cuidada, o cheiro a amaciador nos lençóis. Ninguém dormia no quarto há anos – o meu pai mudou-se para o meu quarto, quando eu saí de casa – e, no entanto, parecia ser o espaço com mais vida de todo este apartamento, a seguir à cozinha.

É engraçado como um mausoléu pode ser um espaço tão luminoso e reconfortante, mesmo que frio e assético.

Nessa noite, depois da morte do meu pai, pensei em deitar-me naquela cama, olhar para o teto e rezar, em nome do pai, do filho e do espírito santo, a ver se alguém – a minha mãe, o meu pai, ou a pessoa que vocês sabem quem é – me ouvia, se alguém me conseguia sentir: um caldeirão de emoções, desejos e possibilidades a descobrir que mundo novo era este, um mundo sem laços nem passados, todo ele presente, todo ele futuro. Pensei também em colocar a urna do meu pai no quarto, em cima da cabeceira dele, ou até na cama; talvez, para não cair, dentro de um armário, ou no chão, debaixo da cama.

Não fiz nada disso. Acabei por fechar a porta do quarto e fui para o escritório ver os livros. Foi a última vez que entrei no quarto dos meus pais.

No escritório restavam apenas as estantes com os livros e uma poltrona, que na verdade costumava estar na sala. O computador tinha desaparecido, bem como a secretária e a cadeira. Pensei – claro que pensei! – no filme, no histórico, e em rezar ao meu pai, a perguntar-lhe se ele alguma vez o viu. Mas apenas me saiu o murmúrio pai, pai, pai.

Ajoelhei-me em frente às estantes. A parte onde estavam os livros da minha mãe estava vazia, com exceção de uns cadernos – cerca de nove, para ser mais preciso. Tinham a data na capa; apercebi-me de que cada um correspondia a um dos dez anos em que o meu pai esteve ausente. Faltava um, do ano do regresso. Abri um dos do meio, ao calhas. Era um diário, com entradas dos dias – não de todos os dias, mas seguindo uma ordem cronológica. As entradas eram, normalmente, pequenas. Menções de hotéis e restaurantes, números de quilómetros, gastos de dinheiro, e expressões aleatórias, como: melhor torta de noz; adorei o café; senti o vento na cara e lembrei-me de Coimbra; as luzes são boas; o João devia gostar deste museu, tem muitas luzes; tenho saudades do Ohio. Ao lado das entradas havia bilhetes, recibos, fotografias coladas. Nas fotografias viam-se paisagens, casas, quartos, edifícios, estradas, quadros. Às vezes apareciam pessoas, e às vezes essas pessoas eram mulheres, e às vezes essas mulheres apareciam mais do que uma vez, em diferentes sítios, como cascatas, carros, restaurantes e quartos. Às vezes estavam despidas, outras vezes estavam a sorrir. No final de cada caderno havia um mapa, ou parte de um mapa, dos Estados Unidos, com os trajetos que o meu pai percorreu marcados a caneta, de diferentes cores. Não percebi o que significava cada cor.

Fui à cozinha e abri a garrafeira. Estava preenchida, com mais tintos do que brancos. Tirei um dos brancos, uma coisa qualquer do dão, abri a garrafa e servi-me de um copo. Levei o copo e a garrafa para a sala e sentei-me no sofá, a olhar para a urna. Ouvi uma ambulância a passar lá fora. Liguei a televisão, num canal qualquer de notícias, e tirei o som. Bebi o vinho; estava bom, fresco, perfeitamente seco. Depois imaginei o meu pai a viajar durante dez anos nos Estados Unidos, a conhecer sítios, pessoas; a conhecer mulheres e a namorar com elas, a irem para a cama, e a fugirem – ou seria só ele, a fugir? – para outro Estado. Umas noites mais tarde, com outra vontade e outra garrafa, vou voltar ao escritório e aos cadernos, e vou seguir os trajetos, e perceber a que Estados é que ele foi, e onde ficou, e vou perceber que ficou muito tempo no Ohio, em Cincinnati, no início, e que depois esteve em todos os Estados, não sei bem como, nem a fazer o quê, mas gastava dinheiro, arrendava apartamentos, ou dormia em motéis, e alugava carros, até comprar um em segunda mão, e uma guitarra, guitarra que deixou algures no Montana, com uma mulher, e vou descobrir cartas, cartas de mulheres que o conheceram, de duas mulheres que lhe escreveram sempre, a quem ele ia avisando onde estava, e que lhe escreveram também para Lisboa, mais do que uma vez, mas ele aí nunca respondeu. Uma chamava-se Jenny, e era de Tallahasse, Flórida; a outra chamava-se Megan, e era de Panguitch, Utah. Vi as fotografias delas nos cadernos. Não eram nada parecidas com a minha mãe.

Mas naquela noite, dois dias depois da cremação, fiquei apenas na imaginação. Confesso que nada daquilo me irritou muito, que até me alegrou. O meu pai, que estava morto, afinal viveu, e viveu bem. Porque é que voltou para Lisboa, era um mistério – nos cadernos vou descobrir várias menções ao meu nome, com preocupações, lembretes de transferências, recados para me contar mais tarde – e a falta do último caderno devia ter que ver com isso. Se calhar não existe, não foi montado. Se calhar ele fartou-se. Se calhar está escondido, algures na casa, para eu encontrar e descobrir, ao lê-lo, o sentido da vida. Se calhar está na cozinha, dentro da garrafeira, ou então no meu antigo quarto, ou se calhar na casa de banho das visitas, junto à retrete. Se calhar está no quarto dos meus pais, debaixo da cama, ou no meio das coisas da minha mãe. Se calhar estava com ele dentro do caixão de pinho, e agora é um conjunto de cinzas, misturadas com ele na urna.

Acabei o copo e enchi outro. Na televisão, dois comentadores pareciam estar a pegar-se um com o outro sobre um tema de corrupção no Governo. Não liguei o som; dei um novo gole no vinho, peguei no telefone e liguei ao meu chefe.

O meu chefe disse-me, no velório, para eu não ter pressa em voltar ao escritório, que compreendia que este era um tempo difícil e para eu gerir como achasse melhor. Que se quisesse estar fora por uns tempos, estava tudo bem: o importante era dar espaço para que eu recuperasse do que estava a passar, para viver o luto com calma e – não estou a inventar, ele disse mesmo isto – “plenitude”. Eu não sei se ele estava a falar a sério ou se era apenas um conjunto de merdas vazias que ele aprendeu no coaching, mas não interessa. Liguei-lhe, enquanto um dos comentadores apontava o dedo ao outro, outro que por seu turno estava a franzir os sobrolhos com uma força impressionante, e disse: vou estar fora por uns tempos. Não sei bem quanto. Pelo menos um mês, talvez mais. É muita coisa para tratar, muita coisa para processar. O meu pai e eu éramos muito próximos. A minha mãe morreu, há muitos anos, num dia em que eu faltei às aulas para ir para casa masturbar-me em sossego e, apesar de não ser isto que lhe disse, disse: e sinto que preciso de parar, de ter algum tempo para me recompor, e para poder voltar a cem por cento ao trabalho. Se quiser, chefe, não me pague, não quero abusar.

Claro que não abusa, é o que ele me vai dizer, um pouco à rasca, mas sem voltar atrás no que me propôs, por obrigação ou crença. Acrescentará que eu, João Silva, sou essencial para o escritório, que sou parte da família, o que quase me causará um ataque de riso, e me fará verter um pouco de vinho nas calças. Regressa quando quiser, cá o esperamos, trate de si, saúde mental e o caralho, muito obrigado, muito obrigado chefe.

Quando desliguei o telefone, os comentadores já tinham sido substituídos por uma peça jornalística que dava conta de um acidente na Bolívia, onde uma avioneta que carregava dinheiro do banco central caiu em cima de uma casa num bairro de lata. As pessoas – tripulantes, habitantes, e um ardina (nem sabia que ainda existiam ardinas) – morreram. O dinheiro não: sobreviveu, intacto, notas e notas e mais notas.

Enchi mais um copo e dei outro gole. Emocionei-me, não sei porquê. Foi assim que começou o meu período de luto.