
No dia em que o meu pai morreu, eu estava deitado no sofá, na Gonçalves Crespo, a acordar depois de um breve sono. Era domingo de manhã.
Tinha chegado a casa de madrugada, vindo da Rua de Angola, onde morava a Milly. Milly era uma estudante de doutoramento norte-americana que estava em Lisboa num programa de intercâmbio. Conheci-a no Centro, numa noite como às outras, em que eu só queria beber e estar sozinho. Cruzámos os nossos olhares em algum momento, e em algum momento começámos a conversar. Continuámos a encontrar-nos por lá, e a conversar, e um dia fomos para casa dela continuar a conversa. De repente, deixámos de ir ao Centro, e passámos só a ir para casa dela, cozinhar, jantar, beber, ouvir discos, ver filmes e amar, sem nenhuma ordem em especial.
Nessa noite, falámos muito sobre Washington, onde ela tinha vivido até ir para a universidade, no Michigan. Como é que é Washington, perguntei-lhe – só vi fotos, nunca lá fui. Ela dizia-me que Washington era verde, e era grande, e era bonito, e muito misterioso. É muito diferente de Lisboa – e gostas de Lisboa, perguntei-lhe. Sim, gosto: é muito bonita e antiga. Mas está com muitos americanos, respondeu-me. Alguns maus, outros bons, retorqui. Ela riu-se, e perguntou-me o que é que eu achava de Lisboa. Gosto de Lisboa, disse-lhe, é a minha cidade. A tua cidade; sim, nunca vivi noutro sítio. Nem sei se quero. E ela ria-se, e eu ria-me. Do que é que gostas mais em Lisboa? Boa pergunta, respondi. Gosto do céu, e das luzes, e dos prédios, e de como tudo muda quando se muda de uma zona para a outra. Gosto das noites, da forma como as noites são, quando se está lá fora, a andar. Não sei. E tu, Milly, do que é que gostas mais em Lisboa? De ti, acho eu. Estou a brincar. Mas acho que é de ti.
Não foi a primeira vez que ela disse uma coisa assim, de repente. Não foi a primeira vez que sorri. Tinha uma juventude contagiosa, um humor ternurento que me desarmava. Abraçámo-nos.
Chovia lá fora. Dentro do quarto parecia-me que a canção que estávamos a ouvir na sala há pouco, uma balada simples de guitarra e voz, continuava a tocar. Milly estava a dormir há já algum tempo. Sentia o respirar dela, quente e regular, contra as minhas costas. Tinha o braço esquerdo por cima do meu, e as duas pernas dobradas e encaixadas nas minhas. Senti-me bem naquele momento, muito aconchegado, ao ponto de lembrar-me da minha mãe. Nada de mais: apenas a imagem de sempre, dourada e fixa, sem movimento. Era bonita, bonita como a Milly, como a chuva a cair lá fora, como a canção que tocava sem que eu me lembrasse de termos deixado a aparelhagem ligada.
Esperei mais um pouco e levantei-me devagar. Apanhei a roupa no chão e saí do quarto de fininho. Olhei ainda para Milly antes de fechar a porta. Estava com um ar muito querido e descansado. Decidi que seria a imagem que queria ter dela para sempre, caso alguma coisa nos acontecesse. Depois fui-me vestir e saí de casa.
Estava fresco na rua, e eu perguntava-me porque é que não tinha ficado lá, porque é que estava a voltar para casa, porque é que trabalhava tanto, porque é que ia almoçar com o meu pai, e porque é que ainda sonhava com a Armanda. Vi dois sem-abrigos pelo caminho, um casal de estrangeiros a voltar para casa, e alguns carros. Apetecia-me um café, mas não havia nenhum café aberto. Pensei pela milésima vez em arranjar uma máquina para casa. E pela milésima vez afastei em pensamento, após dobrar a esquina.
Quando cheguei ao meu apartamento tirei os sapatos e caí no sofá. Ainda estava escuro lá fora. Deixei cair a carteira e o telefone no chão. A Milly ia perguntar porque é que eu não fiquei lá a dormir, e eu não ia saber responder, porque queria ter ficado, mas achei que não devia, e explicar coisas simples tonra tudo mais complicado, pelo que o melhor era estar calado. Fechei os olhos e pensei na cara de Milly a dormir. Adormeci.
Acordei com o telefone a tocar. Achei que era do escritório, mas fui ver e era de um número fixo que eu não conhecia. Atendi.
Não sei se foi isto que me disseram exatamente ao telefone, só sei que foi isto que ouvi.
Estou, senhor Silva? Daqui é da polícia municipal. O seu pai morreu. Teve um acidente. Morreu.
Quando disseram “o seu pai” houve qualquer coisa no meu peito que se esvaziou. Era uma sensação nova, mais leve do que aquilo que me bateu quando a minha mãe morreu. Lembro-me de estar no sofá, deitado, e de me endireitar e ver, ao meu lado, o meu pai, tal e qual como estava na sala de estar, a olhar em frente. Em frente estava a janela, e para lá dela o céu azul, com o sol no cimo. Era uma imagem boa, pacífica.
Fiquei algum tempo assim olhar em frente, depois de ter desligado a chamada. Sou capaz de ter chorado um pouco. Depois liguei à Cândida e ao Pires, que vieram ter comigo e acabaram por passar o dia a ajudar-me a tratar das coisas. A Céu, que era a nova namorada da Cândida, também veio, o que me irritava profundamente, porque não gostava nada dela (tinha uns olhos de carneiro mal morto, nunca se percebia o que estava ou não a pensar). Fui recebendo algumas mensagens e chamadas, nenhuma delas da Armanda. A dado momento escrevi à Milly a dizer que gostava muito dela, sem mais. Arrependi-me pouco depois de ter enviado a mensagem. Passei a noite com eles em casa, sem falar muito, e a tentar evitar o olhar da Céu, que tanto podia ser de pena como de desinteresse. Ela deu-me a dado momento os seus sentimentos, e apeteceu-me partir-lhe a cabeça à paulada. Mas a Cândida tratou de mim, fez-me comida, cantou-me canções, e deitou-me com calma. Antes de fechar os olhos, lembrei-me que não tinha uma gravata preta. O Pires disse que tratava disso. Voltei a fechar os olhos, e lembrei-me do dia em que a minha mãe morreu, e do meu pai na sala de estar. Quis perguntar ao Pires se ele ainda lá estava. Não tinha recebido qualquer mensagem ou chamada da Armanda.
O Pires tratou da gravata, mas só me deu depois do velório ter começado e algumas pessoas terem chegado. Acabei por nunca pôr a gravata, passando as cerimónias com ela enfiada dentro do bolso do casaco. O velório foi curto e razoavelmente participado, e eu passei mais tempo a pensar se a Armanda iria aparecer do que no meu pai, que estava morto, e deitado dentro de um caixão de pinho. Perguntaram-me se eu queria vê-lo, e eu disse que não, porque não queria, e porque sabia exatamente com que cara é que ele estava: a cara vazia e sem expressão com que estava na sala, a pensar na morte da minha mãe. Pensei em perguntar ao Pires (não à Cândida, e muito menos à Céu) pela Armanda, mas não perguntei. Algumas pessoas vieram, do escritório, do passado, e de sítios desconhecidos. Recebi muitos sentimentos e condolências, dos quais me esqueci mal saí da igreja, quando já era de noite.
Quando o jantar na Rampa acabou, o Pires perguntou onde é que eu queria ir, e eu disse-lhe que queria ir para casa. Depois de me deixarem no prédio, esperei uns minutos, e voltei a sair, a caminho do Centro.
Nunca tinha estado no Centro numa noite de segunda-feira. Parecia igual aos outros dias, só que vazio: para além dos dois barman e do DJ só estava lá eu, de fato e camisa, com a gravata no bolso. A música também era diferente, mais lenta, mais onírica. Pedi um digestivo e pensei no meu pai, que apesar de tudo bebeu sempre um digestivo no final dos nossos almoços de domingo. A Milly chamou-me a atenção para a gola da camisa, que estava ligeiramente dobrada. Agradeci-lhe. Depois perguntou-me como é que eu estava, e que eu estava bonito assim, de fato. Não lhe disse o que se tinha passado: disse-lhe apenas que tinha tido um dia difícil, mas que estava bem agora. Ela perguntou o que é que eu estava a beber, e eu disse-lhe que o Ohio era bonito, antes de cair nos seus braços, contendo as lágrimas com toda a força que tinha.
Nessa noite fiquei com ela, deitado no quarto, a ver a chuva a bater na janela. Dormi muito pouco: acordava e lembrava-me do meu pai na Infante Santo, a olhar para o vazio. Murmurei baixinho, naquele quarto da Rua de Angola, como murmurei muitas vezes no meu quarto da Infante Santo, quando o meu pai se foi embora: pai, pai, pai. Como se ele pudesse ouvir-me, onde quer que estivesse.
Acordei tarde e saí a correr de casa para ser apanhado pelo Pires para ir para o crematório. A gravata continuava no bolso do casaco. A Cândida e a Céu estavam no banco de trás, e eu sei que ambas repararam que eu estava com um ar cansado e com a mesma roupa de ontem. Sabia que não iam fazer perguntas, porque o meu pai tinha morrido e eles nunca foram do género de fazer perguntas.
No crematório estavam quase tantas pessoas como no velório. Só faltava a Armanda. Eu estava na fila da frente, em frente ao caixão, a olhar para o padre. O padre benzia o caixão, benzia-nos a nós, benzia o espaço e este mundo e o outro. Depois as portas do crematório abriram-se, de lado. Conseguia, de onde estava, ver uma parte dos fornos e sentir o cheiro a calor e queimado que dali vinha. O barulho era intenso, mas não me abalou. Estava cansado, triste, mas resignado. O meu pai tinha morrido – consumatum est, disse-me o padre, afastando-se do caixão.
Nesse momento, pareceu-me que o meu pai estava ao meu lado, a ver as coisas, com o seu típico ar de desinteresse. Entraram quatro homens na sala, pegaram no caixão, e levaram-no para a sala dos fornos. O meu pai e eu ficámos parados, de pé, depois de fecharem a porta. O barulho ainda se ouvia, e o meu pai não olhava para mim. Disse-lhe pai, pai, pai, e sou capaz de jurar que ele sorriu um bocadinho, antes de se virar e ir embora, pela porta da frente. Depois a Cândida abraçou-me, e depois o Pires abraçou-me, e depois as pessoas, todas as pessoas, menos a Céu e a Armanda, me abraçaram. Estava exausto quando me meti no carro. A Céu perguntou-me onde é que eu queria ir, e eu pensei em dizer Washington, mas acabei por pedir para me deixarem em casa, na Infante Santo.