
No dia em que a minha mãe morreu, eu estava na casa de banho das visitas a masturbar-me.
Tinha quinze anos e costumava ter aulas de inglês à quarta-feira à tarde. Nesse dia não fui: em vez disso, saí da escola e segui diretamente para casa. Quando cheguei, fui deixar a mochila ao quarto, e depois de uma rápida passagem pela cozinha para encher uma tigela de cereais e abrir uma lata de coca-cola segui para a sala de estar, sentei-me no sofá e liguei a televisão. Estava a dar o jogo Dinamarca contra Itália, da fase de grupos do euro dois mil e quatro. Acompanhei o jogo – uma seca descomunal – até acabar de comer os cereais. Depois peguei na lata de coca-cola, praticamente cheia, e fui para o escritório. Sentei-me à secretária e liguei o computador.
Naquela altura, o meu pai só costumava deixar-me usar o computador para jogar jogos ou para fazer trabalhos para a escola. O problema é que estava sempre alguém no escritório quando eu usava o computador: ou a minha mãe, a ler os livros dela, ou o meu pai, a ler os livros dele. Às vezes liam livros um do outro, mas tinham o cuidado de os arrumar sempre no lado da estante que pertencia ao dono original do livro. A minha mãe tinha o lado esquerdo da estante, e o meu pai, o direito.
Irritava-me profundamente o facto de não poder estar sozinho no escritório e só poder usar o computador para certos e determinados fins, durante um certo e determinado período de tempo. Muitas vezes nem estava há uma hora a jogar quando o meu pai me dizia para parar e ir ler um livro. Eu protestava, mas os meus pais mantinham-se inflexíveis e insuportavelmente serenos. Nessas ocasiões eu ia para o quarto a bufar para dentro. Fechava a porta, atirava o livro que me tinham dado para o chão, e deixava-me cair em cima da cama, amuado. Muitas vezes ligava a aparelhagem e punha um disco a tocar, normalmente – quase sempre – o Is This It dos Strokes. Na minha irritação, só queria que me deixassem em paz, que é como quem diz, que me deixassem fazer o que queria, que era estar no computador sem qualquer controlo ou limite de tempo. Deitava-me na cama a olhar para o teto, com a música a tocar, cheio de raiva contra os meus pais e com inveja dos meus amigos que tinham computadores só para eles no quarto e que passavam a vida, segundo os próprios, a fazer coisas na internet, como falar com miúdas mais velhas em grupos de discussão, sacar músicas de bandas de que gostávamos, jogar jogos de guerra, e claro, ver pornografia.
Nesse dia em que a Dinamarca jogava contra a Itália em Guimarães, resolvi faltar às aulas de inglês para criar a minha oportunidade para estar sozinho em casa até à hora de jantar e, assim, aproveitar o computador sem qualquer tipo de supervisão.
Uma vez sentado à secretária, com o computador ligado e com a lata de coca-cola ao lado abri o motor de pesquisa. Fui clicando aqui e ali, abrindo vários sítios diferentes, como quem vai visitando diferentes galerias num edifício, procurando saber do que é que está realmente à procura. Alguns sítios que visitei tinham nomes grotescos: “três xis ultimate”, “pussy doctor call me”, “gargantafundapontecomeme” “pornpó”. Dentro de cada sítio ia vendo que filmes existiam, e se era preciso pagar ou não para conseguir vê-los. Se fossem grátis, via. Tinha as colunas ligadas, mas com o volume baixo, não fosse alguém chegar, entretanto, como aconteceu uma vez a um miúdo da minha turma que foi apanhado em flagrante delito pela mãe (terá sido o Santos ou o Calado? Gostava mesmo que tivesse sido o Santos, mas não sei ao certo. O Pires deverá saber).
Achei a maior parte dos filmes que encontrei nesses sítios demasiado maus, com pessoas muito feias a agir de uma forma mesmo javarda. Parecia tudo falso: os corpos cheios de um suor gorduroso e plástico, os órgãos genitais insuflados, os gritos e expressões de prazer exagerados. É só isto, pensava para mim, é só isto que é a pornografia? Não estava a conseguir encontrar nada que me entusiasmasse por aí além até que, após quase uma hora de pesquisa, encontrei finalmente um filme que me tocou bastante. Acho que era espanhol, mas ainda hoje não tenho a certeza.
O filme começava com uma mulher de cabelo moreno, pele branca e olhos castanhos a subir umas escadas cobertas por uma alcatifa bege. A mulher era alta e esguia, e usava um vestido preto muito justo e uns sapatos cinzentos com um salto curto. Quando chegou ao fim das escadas, a mulher virou em direção a um quarto e abriu a porta. Dentro do quarto estava um homem de cabelo cinzento, relativamente musculado, vestido com umas calças cinzentas e uma camisa branca, aberta até meio do peito, deitado numa cama, com as mãos presas atrás da cabeça. O homem estava calçado, mas não tinha meias – lembro-me muito bem desse pormenor. Nem a mulher nem o homem falavam, e o filme não tinha música de fundo. Ouvia-se o som seco dos saltos da mulher a bater no chão do quarto e o respirar ofegante do homem, entre o expectante e o assustado. O quarto parecia antigo, com paredes de madeira escura e pesada e candeeiros baixos, de luzes alaranjadas.
No filme, a mulher fechava a porta do quarto e punha-se a dançar para o homem, de uma maneira muito lenta e esquisita, esticando os braços para cima e para baixo, abraçando-se a si mesma, dobrando os joelhos e voltando a esticar as pernas. Era a mulher mais bonita que alguma vez vi. O homem não se mexia, talvez por estar – tal como eu estava – completamente hipnotizado por aquele ser feminino, poderoso e sedutor, que se colocava com as mãos e os joelhos na cama, aproximando perigosamente os seus lábios da cara dele. A mulher fazia tudo muito devagar, devagarinho, aproximando o seu corpo ao corpo do homem, mas sem nunca lhe tocar, o que, escusado será dizer, aumentava loucamente a tensão. Parecia, num dos planos do filme, que a mulher estava a respirar para cima do homem, como se estivesse a lançar-lhe um feitiço. A luz do quarto dava à pele da mulher um tom dourado e ainda mais sedutor.
A última imagem que me lembro do filme é da mulher deitada em cima do homem, corpo a tocar no corpo, com a cara afundada no pescoço dele e a mão direita em cima de uma das suas pernas.
Quando voltei a abrir os olhos, reparei que estava na casa de banho, de pé, com as calças para baixo, a olhar para o fundo da retrete. Sentia-me ofegante, como se tivesse acabado uma corrida. Naquele momento, na casa de banho, com aquela perspetiva, parecia tudo – eu, o filme, o desejo – altamente ridículo. Senti algo estranho, uma sensação de vergonha pela minha figura, com as calças para baixo e a t-shirt puxada para cima e presa ao peito pelo queixo. Pus-me direito, vesti-me, fechei a tampa da retrete, puxei o autoclismo para baixo e fui lavar as mãos.
Saí da casa de banho e voltei ao escritório para desligar o computador. Ainda hoje não me recordo se apaguei o histórico de pesquisa ou não, se tive essa presença de espírito na altura. Só me lembro de voltar para a sala e de me sentar novamente no sofá a acabar de ver o jogo, que acabou empatado a zero. Depois fui mudando de canal, à espera de que os meus pais chegassem, enquanto bebia o resto da coca-cola.
O tempo foi passando e os meus pais continuavam sem chegar. Eram quase nove horas da noite quando começou um segundo jogo do Europeu, Suécia contra Bulgária. O meu pai entrou em casa quando eram quase dez, no preciso momento do jogo em que Henrik Larsson se atirou para o ar como se fosse um torpedo, cabeceando na perfeição o cruzamento de Erik Edman. Vi o golo, admirado pelo movimento de Larsson, e depois olhei para o meu pai, que tinha acabado de aparecer na sala, sozinho. Estava com um ar estranho e ausente. Não me disse nada quando chegou, fixando-se na televisão, a ver as várias repetições do golo que iam passando. Quando acabaram, disse-me, sem tirar os olhos do ecrã: a tua mãe morreu. E eu não percebi, e, entretanto, a Suécia marcou outro golo (Larsson, outra vez) e tudo o que se estava a passar na sala ficou, de repente, muito confuso.
A tua mãe morreu. Teve um acidente. Morreu.
Quando o meu pai acabou de falar, lembro-me de sentir um calafrio gigante por todo o corpo. O frio consumia-me, bloqueava-me. Fiquei imóvel, no sofá, sem saber o que fazer. Parecia que, de repente, tudo se tinha esvaziado: ele, eu, a casa, o tempo. Olhei para o meu pai, que me devolvia com o olhar a mesma estranheza e incompreensão que eu sentia. O desconforto era indescritível: estava num sítio onde não queria estar, mas de onde não conseguia sair.
Na televisão, os suecos festejavam o novo golo, o terceiro da noite. O meu pai deixou de olhar para mim e virou-se para a televisão para ver a repetição Lembro-me de chorar enquanto olhava para ele.
Não sei quanto tempo ficámos assim.