Na fotografia, o meu pai está de pé, virado para o mar. Está um dia bonito: céu azul, limpo e claro. Mas não é verão – digo isto pelo casaco, em cujos bolsos ele guarda as mãos. Não se lhe vê a cara, a figura está toda ela escura, provavelmente por estar virado contra o sol. A sombra cai-lhe pelas costas, numa linha mais reta do que a pose que a origina. Há vários buracos na areia, e marcas de pneus. A maré está baixa, as ondas rebentam ao longe e chegam à praia já batidas. Há algo ao lado do meu pai, não se percebe se é um saco ou uma rede. Não interessa. Pela cor molhada do areal, a sua inclinação e espaço, pelo tipo das ondas e pela cor do céu, sei que é uma praia em Portugal. Onde, é que já não consigo adivinhar.

Ignoro quem tenha sido o fotógrafo, embora assuma que foi a minha mãe. A data, impressa na parte de trás, é 1988, ano anterior ao meu nascimento. Não sei se a minha mãe já estaria grávida na altura em que tirou a fotografia ou não. Podia ter procurado uma resposta para esta pergunta (e para tantas outras) junto do meu pai, quando tive oportunidade. Nunca o fiz. Não sabia como é que ele iria reagir, porque quando se perguntava alguma coisa ao meu pai que tivesse que ver com uma memória ele fechava-se sobre si mesmo, ficando em silêncio. Se eu por acaso quisesse saber algo sobre o seu passado (que era em parte também o meu), o melhor era esperar: esperar que, num momento qualquer, aleatório e nada previsível – por exemplo, durante a sobremesa, a lavar a loiça, a arrumar sacos de compras na cozinha, sentado no sofá a ver um jogo de futebol – ele começasse a falar. E quando falava, falava muito, e sobre muita coisa, descrevendo as pessoas, locais e eventos de uma maneira muito precisa, exceto quando tinha dúvidas, o que volta e meia acontecia. Não falava de forma entusiasmada nem sensível. Era seco e aborrecido, como um burocrata que tentava recuperar e reconstruir algum ficheiro antigo, como se a vida fosse apenas um objeto funcional, isolado e desligado de si mesmo. Se por acaso eu interrompesse o discurso com perguntas era ignorado, exceto quando ele ouvia, casos esses em que a resposta era sempre sim, não, não me lembro, podia ser, podia ser…

Para o meu pai, o passado era apenas uma estrutura formal, meramente declarativa, sem qualquer sentido ou valor. Não merecia importância:

Lembro-me bem de onde é que desencantei a fotografia. Havia uma gaveta na secretária do meu pai na Infante Santo que tinha muitas fotografias. Algumas estavam organizadas em álbuns, outras estavam dentro de envelopes e outras nadavam soltas. Pela letra de alguns dos envelopes, as fotografias deviam ter sido arrumadas pela minha mãe. No entanto, não sei porque é que entre tantas fotografias que havia lá por casa escolhi esta para levar comigo, quando me mudei para a Gonçalves Crespo. O meu pai está sozinho e praticamente irreconhecível: é uma sombra, virado de costas para a câmara, ignorando por completo o olhar dos outros, mantendo-se, firme e sozinho, a observar as ondas no mar. Não há um sorriso, uma memória, um estilo que sobressaia. E, no entanto, era a única fotografia do meu pai que tinha em minha casa – a única fotografia, aliás, dos meus pais, porque não tinha qualquer fotografia da minha mãe.

A Armanda vivia obcecada com este mistério. Passava a vida a tentar perceber qual a razão de eu ter escolhido esta fotografia, entre tantas outras que possivelmente existiam e que seriam mais felizes, mais bonitas, ou simplesmente mais típicas de uma ideia de família. Eu não conseguia responder-lhe de forma satisfatória. Passava a vida a tentar justificar-me através de argumentos mais ou menos racionais que me iam surgindo: foi a primeira que encontrei, foi a que eu achei que o meu pai nunca daria pela falta, foi a que me pareceu melhor na altura… No entanto, não conseguia convencê-la, ou sequer convencer-me a mim, do que eu próprio achava. As minhas verdadeiras motivações permaneciam desconhecidas.

Sentado na cama da minha nova casa em Maple Valley, Washington, com a fotografia à minha frente e o vento a bater nas janelas, fui capaz de arriscar uma justificação mais profunda para a escolha. Acho que a razão principal por ter trazido aquela fotografia de casa do meu pai, e por a ter escolhido entre tantas outras que existiam, foi porque, simplesmente, gostava dela. Isto é, porque tinha – tenho – apreço pela imagem. É um argumento mais estético do que sentimental: achava a fotografia muito bonita. Em termos de técnica, de luz e de enquadramento, era uma boa fotografia; em termos de retrato, era uma ótima imagem de serenidade e melancolia. Não precisava de ver a expressão do meu pai, nem de saber que é ele que estava ali: bastava-me ver aquela figura perante o mar para me apetecer imediatamente estar assim, num momento externo aos movimentos da vida, com o mundo a tomar-me por completo, reconfortando-me com a força simples, assertiva e reconfortante dos seus elementos. A brisa na cara (que não via, mas sentia) sobrepondo-se ao sol, o frio e o quente juntos e a possibilidade, mesmo que por poucos minutos, de alguma paz.

A Armanda não ficaria convencida com este argumento. Para a Armanda, eu tinha escolhido esta fotografia porque era a que melhor retratava a forma como eu via o meu pai: como um fantasma, alguém que existia mas que, ao mesmo tempo, não, não era real. E achava estranho que eu não conseguisse perceber isso, dizendo que muito provavelmente era um movimento qualquer subconsciente. Freud explica, dizia-me ela. Explica sim, querida, explica sim, dizia-lhe eu, enquanto arriscava uma piada sobre o céu, a rua, ou o que me viesse primeiro à cabeça, matando o assunto rapidamente. Achava, no fundo, que ela era capaz de ter razão, mas nunca iria admiti-lo, pelo menos não à sua frente.

A Armanda ainda me aparecia em sonhos. Surgia sempre sentada numa mesa de jantar a observar as coisas que se passavam ao seu redor. Quando entrava no espaço do sonho nunca a via, até que de repente me dava conta de que ela estava lá, a olhar para mim, com um ar leve, mas suspeito. Avançava para lhe falar, perguntando-lhe como estava, e ela ficava calada, a olhar-me com os seus olhos muitos escuros e abertos, sorrindo. Ficávamos assim o resto do sonho, calados, ela a olhar para a sala, e eu a olhar para ela, à espera, sem sucesso, de uma resposta.

Estava a sonhar com ela no avião. No sonho, eu estava num bar, e o bar era muito parecido com o Centro, mas mais pequeno. Eu estava no meio da pista de dança, com a Cândida, o Pires, a Laura e a Céu. Estávamos a dançar uma música do Bruce Springsteen, aquela em que ele diz que toda a gente tem um coração. Estamos todos felizes, eles mais do que eu. De repente paro de dançar, mas eles continuam, como se eu não estivesse ali, e aproveito a oportunidade para me ir embora, sabendo que eles não vão reparar em nada. Começo a dirigir-me para a porta e quando estou quase a chegar olho para o lado e vejo (claro que vejo) a Armanda, sentada numa mesa.

Tal como noutros sonhos, ficamos a olhar um para o outro, a sorrir. Eu sei, naquele momento, que ela me apanhou: que ela sabe – que é a única pessoa que sabe – que eu vou apanhar o avião para os Estados Unidos. E sei que ela sabe que eu sei, e que gostava muito que ela me dissesse alguma coisa, que se despedisse pelo menos. Mas a Armanda, como em todos os sonhos, não diz nada, mantendo-se calada, a olhar para mim, e depois para a sala, onde os meus amigos continuam a dançar, cantando o refrão em coro. Resignado, viro-me para sair, mas quando estou a abrir a porta oiço a Armanda (e mais: consigo ver a Armanda, sentada de costas para mim, a olhar para a sala) a perguntar-me: e o teu pai, como é que está?

O meu pai, como é que estava? Quando acordei, primeiro no avião, algures sobre o Midwest, e depois no quarto em Maple Valley, lembrei-me da pergunta, e a imagem que me veio à cabeça foi a imagem do meu pai a entrar em casa, na Infante Santo, no dia em que a minha mãe morreu.