
Durante o meu período de luto fiz uma data de coisas diferentes, como, por exemplo, passear.
Acordava cedo – nunca consegui acordar tarde na minha vida, infelizmente – e saía, na maior parte das vezes a pé. Punha-me em direção à Estrela, e depois tomava o sentido que me apetecesse mais, que era quase sempre pelo jardim. Aí parava, sentado num banco, a ver as pessoas e as coisas a passar. Na minha cabeça surgia uma ideia, no coração um desejo, e eu balançava entre um e o outro, para no final seguir o segundo. Isso levava-me a muitos sítios, sítios muito diferentes: desde museus ou restaurantes, ruas ou avenidas, por vezes jardins, cafés, cinemas, livrarias, restaurantes, bares e hotéis. Apanhava o metro, nunca um autocarro, e sempre que podia comprava um livro pelo caminho, que ia lendo enquanto viajava. Às vezes tirava notas, com uma caneta, nas páginas do livro, sobre coisas que tinha visto, pessoas com quem me tinha cruzado, e sentimentos, os muitos sentimentos que tinha. Queria contemplar, mas também queria viver. Passava pelo Nimas ou pela Cinemateca e assistia às primeiras sessões do dia, que me deixavam a sonhar para o resto das horas. Depois ia beber um café, ler jornais, ler o livro, andar de bicicleta pelas Avenidas Novas, deitar-me a apanhar sol num banco, onde quer que fosse. Aos fins de semana gostava de entrar em centros comerciais decrépitos, como o residence do Saldanha, e ficava com os idosos e desempregados no átrio da restauração a assistir a programas do canal História sobre teorias da conspiração envolvendo extraterrestres e o império romano. Metia conversa com quem quisesse, e desaparecia quando me apetecia. Nunca dizia adeus. Jantava quase sempre num sítio novo, um dos muitos restaurantes da cidade de terceira categoria, onde tudo tinha sabor, o álcool era barato, e a sobremesa era doce da casa. Acabava em concertos, casas de desconhecidos, festas privadas, ou bares de hotel, sozinho, com um copo à frente. Dormia, por vezes em casa, mas muitas outras em quartos de hotel, por nenhuma razão em especial, apenas porque sim: porque eram frescos, limpos e impessoais. Depois saía, deixando o livro no quarto, e ia tomar o pequeno-almoço num café, pequeno-almoço que não passava de um abatanado e um croissant com uma fatia de queijo, e voltava para casa, sempre a pé, nunca de transportes, para conseguir apanhar o ar fresco da manhã na cara.
Passeei muito, e passeei muito com Milly, mas nunca em Lisboa, sempre fora. Em Lisboa não passávamos do Centro, nem da casa dela, nem, nos momentos mais íntimos, do meu anterior recanto, na Gonçalves Crespo. Fora, tínhamos o país a nossos pés, ou pelo menos as zonas costeiras mais adjacentes à capital. Íamos no meu carro, que dantes era o carro do meu pai, e fazíamos viagens até à beira-mar, porque Washington tinha mar, dizia-me ela, mas não era como este, e eu dizia-lhe que não, que não devia ser. Fomos às costas, da Caparica e de Sintra, e arriscámos alguns movimentos para sul, para o Meco, e para norte, para a Ericeira. Milly queria conhecer o oeste, e eu dizia-lhe que tudo era oeste neste país, mas ela queria ver o que nós chamávamos de oeste, o verdadeiro oeste, e eu assenti, e fomos até ao Baleal, e depois a Santa Cruz, e ela gostou muito, mesmo com o frio e a chuva que se faziam sentir.
A Milly gostava muito de mim, dizia, e dos dias comigo, mesmo os chuvosos e friorentos, e eu também gostava dos dias com ela, a viajar de carro, com o rádio ligado a passar um artista norte-americano qualquer, a almoçar peixe e a beber vinho, a dormir em apartamentos arrendados ou hotéis manhosos marcados no próprio dia. Amávamo-nos muito: a paixão era intensa, mas também o eram a ternura e o carinho com que sentia o seu olhar, o seu toque, a sua disposição para comigo. Sentia o seu amor, mesmo não o compreendendo, e isso sensibilizava-me de uma forma que me deixava desconfortável, embora num bom sentido, o que era ainda pior. Procurava dedicar-me como podia, devolvendo-lhe alguma coisa de mim que fosse boa: atenção, humor, intimidade… Ela ia aceitando, com um sorriso na cara, contente com esta espécie de aventura estival em que nos encontrávamos. Mas por mais que eu tentasse, nunca conseguia aguentar-me muito tempo sem que o desconforto começasse a incomodar-me de uma maneira violenta, pelo que nunca passávamos mais do que dois, três dias seguidos juntos, no máximo.
Passei mais tempo seguido nos Estados Unidos, a montar as viagens do meu pai. Imprimi um mapa gigante do país, dividido em diferentes folhas, cobrindo quase por completo o chão do escritório, ao qual anexei outras folhas com outros mapas: mapas ampliados de cidades e vilas por onde o meu pai passou, e fui montando em cada sítio uma casa, uma paragem, e uma história. Depois fazia as ligações para o que tinha sido antes, e para o que tinha sido depois, tentando reconstruir com isto tudo uma história e, no final do dia, uma vida.
Não era fácil, porque o meu pai não foi muito organizado a fazer os cadernos. Não sei o quão propositado isso foi, só sei que os percursos lá mencionados não faziam sentido na ordem cronológica por ele estabelecida, e contradiziam as datas dos recibos, das fotografias, e das cartas recebidas. Apercebi-me de que o meu pai viveu com Jenny pelo menos um ano, primeiro em Savannah, Georgia, e depois em Tallahassee. Com Megan, a relação foi quase tão comprida, mas intercalada entre três localizações: Idaho Falls, no Idaho; Oxford, no Mississipi; e Las Vegas, Nevada. As cartas, todas elas muito púdicas e simples, com descrições de atividades diárias, sentimentos sobre a família próxima, e algumas declarações de amor e saudade, não me deixavam perceber quem é que andava atrás de quem, ou se todos os seus encontros eram acidentais. Servido sempre de uma garrafa, principalmente de branco, mas volta e meia de tinto, passei noites e noites a tentar colar as peças deste puzzle que foi a ausência do meu pai, inventando perguntas que precisavam de resposta, e imaginando respostas para perguntas que não tinham sido colocadas, de tão inconsequentes que eram. A certa altura peguei na urna e coloquei-a no escritório, em cima do Ohio, como um guia que me indicasse os caminhos a percorrer e as casas a visitar.
Visitei muitas coisas durante o meu luto, com a Cândida. Perguntava-lhe onde estava, ou onde ia estar, e ia ter com ela ao trabalho. Ela apresentava-me aos clientes como sendo o seu amigo arquiteto, e eu ficava na sombra, a corroborar as suas explicações das diferentes zonas de cada casa, ouvindo-a indicar sempre com muita elegância e visão os vários imaginários possíveis, criando nos clientes uma ideia de atmosfera existencial suficientemente palpável para que quisessem fazer uma proposta. A Candy era uma ótima arquiteta, e uma ainda melhor vendedora, o que lhe dava acesso a um portfólio de casas inacreditáveis. Desde moradias na Encarnação até lofts em Alcântara, passando por terrenos em Marvila e apartamentos na Cinco de Outubro, nada lhe escapava.
Eu via as casas como alguém que procurava um espaço, que admirava a noção e a construção de espaço. Não era como os clientes da Cândida, o meu desejo era outro: queria habitar estas casas tal como elas estavam, entrar nestas estruturas e instalar-me, por poucos momentos, como um hóspede estrangeiro, agradecido, mas ciente do seu lugar, e da sua transitoriedade. Pensei várias vezes em pedir-lhe para ficar a dormir numa ou noutra casa, e quando achava a ideia demasiado estúpida pensava em roubar-lhe as chaves para poder dormir nessas casas sem que ela soubesse. Limitei-me, no entanto, a conversar com ela sobre os clientes, sobre as suas atitudes e vontades, e sobre as casas e as suas possibilidades.
No entanto, as nossas conversas acabavam sempre por ir parar a dois temas que me aborreciam. O primeiro era a minha casa, ou seja, a casa dos meus pais. O que é que eu ia fazer, se ia lá ficar, se ia vender, como é que eu estava a pensar fazer, e o diabo a sete. O segundo era sobre o meu futuro, sobre se eu ia voltar ao escritório, ou se ia fazer outra coisa, como um doutoramento, ou um livro, eu que gostava tanto de escrever, e que talvez fosse menos stressante, e por aí. Eu desviava a conversa, e contava-lhe das festas a que tinha ido, ou dos filmes que tinha visto, fazia piadas, contava-lhe trivialidades dos Estados Unidos, quase que lhe dizia que a urna do meu pai estava em minha casa, e depois tentava fazer-lhe a cabeça contra a Céu. Sem sucesso: a Candy adorava-a, dizendo o mesmo que tinha dito antes, noutros almoços e jantares, sobre tantas outras. Ela é que é, John, ela é que é; devias dar-lhe uma oportunidade, é tímida; ela gosta muito de ti John, gostava muito de ser tua amiga. Eu não gostava de ser amigo dela, mas por ti Candy, por ti… e mudávamos de assunto para outra coisa.
As conversas que tinha com o Pires, na Rampa, eram mais interessantes, mas diletantes, porque tratavam de tudo menos de nós. Era o único evento que tinha data e hora marcada durante a semana, porque eram os únicos momentos livres que o Pires tinha para me ouvir. Eu até gostava da rotina: chegar às sete, beber uma cerveja; chegar o Pires, beber outra cerveja; pedir a comida e um jarro de branco; comer, beber, falar; pedir uma sobremesa, sempre o bolo de bolacha, contra a tarte de maçã do Pires; e um café, e um digestivo, e sair quando estava tudo a fechar, ficando ali, naquele triângulo das bermudas de bairro, a discorrer. O Pires é como eu, e como a Cândida: sentimental. Não é como a Céu, nem como a Armanda.
Uma vez, depois de um desses jantares, falámos sobre a Armanda. O Pires disse qualquer coisa sobre uma história, ou um conto, qualquer coisa que ela publicou, e depois calou-se. Perguntou-me se eu ainda ia ao Centro. Disse-lhe que sim, que volta e meia ia, e ele disse que um dia tinha de voltar lá, que tinha saudades do Centro, e falou qualquer coisa sobre a música, ou sobre o barman, ou sobre o Ohio, juro, pareceu-me que ele disse qualquer coisa sobre o Ohio. Despedimo-nos, como sempre, e eu fui, como sempre, para casa: descendo até Santa Marta, subindo a Herculano até chegar ao Rato, para depois subir a Álvares Cabral, até chegar ao jardim, e entrar no jardim, húmido e escuro, com as luzes dos candeeiros ligadas e as pessoas a passarem como pequenos fantasmas perdidos. Sentei-me num banco, abri os braços e respirei fundo. Senti-me muito presente.
Sentia-me também muito presente quando fazia um programa algo estranho, mas reconfortante. Consistia no seguinte. Saía de casa, de carro, e ia para as Amoreiras, no final da tarde. Subia para o primeiro piso, e ia para aqueles restaurantes que estão ao pé do supermercado, sentando-me no japonês, onde pedia o peixe braseado com os legumes assados, com um copo de branco a acompanhar. Depois saía e passava pela loja de telecomunicações para ver que jogo de futebol estava a passar, e metia conversa com os transeuntes que, tal como eu, se punham no meio do corredor a ver o jogo. Depois subia e ia à livraria, não sem antes dar uma volta inteira ao segundo andar, a ver as montras. Na livraria ficava a admirar as estantes em frente à caixa, a ver as novidades, a pensar em comprar todas as novidades, antes de sair da loja sem um livro que fosse. Descia então para o parque, e ia para o carro, estacionado estrategicamente num lugar ao canto, na parte azul, onde me sentava, no banco do condutor, e tirava da geleira que tinha posto no banco de trás uma garrafa de vinho e um saca-rolhas, servindo-me de um copo que tirava de uma mochila colocada no lugar do morto. Ligava o rádio e ficava ali a beber até acabar a garrafa. Depois ia para casa.
Um dia estava assim, no parque de estacionamento, quando o Pires me bateu à porta do carro. Entrou, sentou-se e fechou a porta, e pediu-me para passar a garrafa. Eu passei-a, e ficámos os dois a beber e a falar sobre o passado, sobre o colégio, sobre os amigos que tinham desaparecido, e brindámos, eu à dele, ele à nossa, e depois fui deixá-lo a casa. Quando saiu do carro olhou para mim e disse filho, tem cuidado. Eu sorri, e ele também, e depois foi para casa. Nunca mais nos encontrámos no parque, nem percebi como é que ele me encontrou ali. É ainda um mistério para mim.
Um mistério: em nome do pai, do filho, e do espírito santo. Passei muito tempo no meu luto a tentar rezar como rezava dantes, mas acabava sempre por adormecer, e sonhar, dormisse onde dormisse, como dormisse. Nos sonhos estava sempre em movimento, dentro de hotéis, casas de campo, praias, campos, estradas, jardins, aeroportos, e piscinas municipais no interior de Portugal. Estava a passar por diferentes divisões e espaços, ora sentando-me, ora ficando de pé, enquanto pessoas e memórias se cruzavam à minha frente de formas loucas e inexplicáveis. Via colegas de faculdade com quem nunca mais me tinha cruzado; o meu pai a andar de carro, por estradas americanas; a minha mãe numa praia, que na realidade era uma casa de férias; a Armanda deitada numa cama, algures num ríade, a perguntar-me como é que eu estava, como é que eu queria estar, e depois a desaparecer; e, num jardim enorme, debaixo de uma montanha, cruzava-me com a Céu, sentada com aquele ar dela, vazio e ausente, sem me dizer nada, e a chorar. O Pires aparecia volta e meia, a jantar num restaurante de beira de estrada, e a Cândida surgia ao meu lado, no banco de trás do carro do meu pai, a cantar, sobre os pássaros a voar sobre mim, sobre o que é que ia ser de mim.
Quando acordava estava quase sempre cansado, porque tinha percorrido muito, passado por muita coisa enquanto dormia. Tomava nota dos pormenores de que me recordava, montando um pequeno quadro de cenários e caras, que na noite seguinte era completamente desconstruído, como se fosse tudo um jogo do meu inconsciente, sempre a tirar-me o tapete para ver se eu caía, de alguma forma, nalgum símbolo ou sinal que não se me revelava óbvio.
A única coisa, durante este período todo, que era óbvia para mim era o quanto eu gostava de Lisboa.
Às vezes estava no carro e punha-me a vaguear. Metia a tocar uma lista de canções aleatórias que fui acumulando durante os anos sob o título de “Noite”, e ia seguindo ao ritmo das mesmas. Ia para o rio, para a 24 de julho, e guiava até Santa Apolónia, passando por Santos, o Cais, o Paço e os navios. Depois guinava para dentro, subia até Santa Clara, o Panteão, o Operário e o Damas. Na Graça, duvidava: para trás, para o Botequim, ou em frente, para a Penha? Morais Soares, esse sonho; Areeiro, essa promessa; Alameda, fonte luminosa, sempre em frente.
Na Gago Coutinho virava para Alvalade. Nunca gostei de Alvalade: preferia o Brasil, e depois o Campo Grande. Cidade Universitária, onde eu devia ter estudado, todos os dias, todos os dias. Mas descia para Entrecampos, e subia a Estados Unidos antes de virar para Roma. Emocionava-me sempre aqui, desejando que os semáforos parassem, e os semáforos paravam, porque os semáforos têm sempre razão. Ali entre o Lutécia e o Roma, perto da estação, tocava a canção em que o meu pai dizia filho, esta é a tua cidade. A minha cidade, e eu no carro, velocidade lenta, perto da meia-noite, e começava a chorar pelo King, a chorar pelo Londres, e virava à direita na Igreja para o outro lado, para a República, e para o Saldanha, adeus, adeus querida rotunda! e olhava para a Tomás Ribeiro, hotel America Diamonds, e para esse conceito que é Picoas, antes de entrar na rotunda e descer a Liberdade, virar na Herculano, e seguir para casa.
Casa era isto: este percurso e tantos outros. O céu por cima, a terra por baixo, a música no rádio, e a toda a volta a minha cidade. A minha cidade.